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Feira do Livro

INTERVENÇÕES

Intervenção do Presidente da Comissão Organizadora do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, Prof. Doutor João Caraça
Lisboa, 10 de junho de 2016

«Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.»

Assim cantou o nosso poeta maior, Luis de Camões, o rol de incertezas, de indeterminações, de que a vida é feita… vida de todos os dias a que os homens e mulheres, bem como as nações, se têm de adaptar, mudando.

Todo o mundo é composto de mudança... é uma afirmação definitiva, completa, essencial. Sim, é preciso mudar, mas como?

É que nem tudo pode mudar ao mesmo tempo. Se tudo mudasse num instante, perderíamos evidentemente a identidade. E o que faríamos, pobres de nós, sem a nossa identidade? Mais, o que seria de um país, como um grande navio à deriva, em busca de identidade?

Aqui reside o segredo da adaptação à mudança: é em saber o que deve ser mudado e, ao mesmo tempo, o que não se deve mudar. É para isso que serve a cultura.

Uma sociedade está em permanente transformação: as incertezas do momento podendo converter-se tanto em aspetos positivos, como em negativos, tanto em oportunidades, como em ameaças.

As incertezas trazem a possibilidades de futuros múltiplos. Teremos, pois, de saber escolher um deles, um caminho que conduza a uma solução coletiva portadora de esperança.

Nunca, em tempo algum, houve apenas uma alternativa, nem ontem, nem hoje, nem certamente amanhã. O nosso grande pensador e orador António Vieira, há trezentos e cinquenta anos, alertava-nos na sua portentosa História do Futuro: «Para se avaliar a esperança, há-se de medir o futuro».

Pensar, acreditar no futuro, não é necessariamente uma posição de otimismo, antes o resultado de uma profunda confiança nos outros, nos nossos semelhantes, nos nossos concidadãos. Essa confiança foi a nossa grande arma na caminhada ao longo dos séculos.

Ao ver, neste magnífico quadro do Terreiro do Paço, reunidos os mais altos representantes de Portugal, democraticamente eleitos, os representantes das forças armadas, que garantem a nossa soberania, bem como a presença simbólica e tão significativa de membros das comunidades portuguesas vivendo no nosso país bem como no resto do mundo, fácil é constatar que Portugal se encontra afinal em todos os lugares onde está a alma portuguesa, essa alma feita laboriosamente dos corpos e das mentes dos portugueses, dos seus afetos e das suas razões.

«Tudo vale a pena se a alma não é pequena» como disse Fernando Pessoa. É dos afetos que nasce a confiança.

Portugal está em terra, nos mares, nos ares e, em breve, espero, no espaço.

A memória das gentes portuguesas e o seu formidável contributo para a revolução geográfica da modernidade, mostrando a existência de novos territórios, de novos povos desconhecidos «e o que mais é – de novos céus e novas estrelas» na frase magistral de Pedro Nunes, dão-nos a autoridade moral para falarmos, neste dia, em nome da humanidade.

E o que temos para dizer em nome da humanidade?

Temos, em primeiro lugar, a obrigação de afirmar que a humanidade precisa de se lançar numa nova grande transformação, numa enorme mudança que elimine as causas estruturais das tragédias que afligem a condição humana: a guerra; a pobreza; as migrações, com o seu cortejo de exclusões e epidemias; a perda de sentido, que arrasta consigo a superstição e os fantasmas esquálidos do passado.

Estas quatro pragas que se transfiguram desde tempos imemoriais não constituem uma fatalidade: antes são o resultado de escolhas, de ambições escondidas, de decisões de oligarquias que se arrogam o direito de definir o futuro dos outros sem sequer lhes pedir licença.

Temos de as desarmar. A humanidade não as merece.

Em segundo lugar, temos de realçar a importância fundacional dos nossos valores e das nossas perceções, da nossa cultura e sobretudo da educação, como instrumentos centrais da nossa capacidade de adaptação à mudança e de aprendizagem com vista à sustentabilidade das nossas sociedades.

Todos nós entendemos porque é que é necessária a mudança – é que sem mudança não surgem oportunidades, não nasce o futuro, não se vislumbra a esperança.

Finalmente, em terceiro lugar, temos de declarar que é intolerável que qualquer democracia seja tutelada por poderes de natureza antidemocrática.

Desde o século das luzes que sabemos que a soberania reside no povo. Muitos homens e mulheres de coragem deram a sua vida para que as gerações seguintes, entre as quais as presentes, não mais se sujeitassem ao jugo dos tiranos.

Só o poder político democrático tem o direito de governar o mundo.

Bem sei que há quem goste de argumentar que as novas tecnologias da informação e da comunicação são as portadoras dos novos caminhos que se abrem. Que o resto se dissolve em poeira. Como se todos os sistemas tecnológicos de grande escala não tivessem sempre interagido fortemente com a organização das sociedades no seio das quais operaram!

A sociedade em rede que até agora tem prosperado, combinando a internet com o entretenimento, intoxicando os cidadãos como uma informação repetitiva, martelada sem descanso, banalizada, não nos deixa tempo para refletir.

Interessa-lhe sobretudo a exploração perversa das emoções mais recalcadas, bem como a invocação obsessiva de poderes sobrenaturais – o convite despudorado à ignorância e à opressão.

Macula o futuro, tornando-o sombrio, miserável, opaco, sem alternativa. Infunde o terror e o medo. O medo fragmenta a sociedade.

Daqui à perda de identidade é um curto passo. Curtíssimo, mesmo.

A identidade, numa sociedade moderna, não depende apenas dos seus dois fatores tradicionais – o património, e a cultura.

Não, a identidade, hoje, sustenta-se igualmente num terceiro fator importantíssimo: a ideia do futuro. Este aspeto fundamental não pode ser subestimado – no mundo, sem projeto não há identidade.

Para o entender basta observar a desorganização que grassa presentemente na União Europeia, um continente de tão ricas nações, com patrimónios invejáveis, possuidoras de culturas emanando de fortíssimas experiências históricas, em todos os domínios das artes, das letras, das ciências.

Porém, vemos que se afunda sem remissão o projeto de integração europeia, o projeto mobilizador para o futuro. Onde está o novo projeto?

É por isso que vemos também forças a quererem desapropriar-nos do nosso futuro como nação. Mas, em nome da humanidade, não as podemos deixar fazê-lo, e não as iremos deixar. Um país é muito mais do que um conjunto de indicadores de natureza económica e financeira.

O futuro de um país passa principalmente pelas expectativas, pelas estratégias e pela vontade dos seus cidadãos mais ativos, mais criativos, mais inconformados. Aqueles que possuem, que fomentam e que acarinham o espírito livre.

O espírito livre-se encontra-se, sistematicamente, do lado bom das coisas: daí a sua energia, daí o seu vigor.

O espírito livre está virado para o futuro, para a transformação, para as tarefas novas a desempenhar na sociedade nova permanentemente em construção. É tão importante para a vida como o ar que respiramos.

Os ares de Portugal são bons para o engenho e para a perseverança. Foram eles que nos levaram e continuam a levar a todas as partes do mundo.

O mundo é a nossa casa. Viva Portugal! Vivam os Portugueses!

 
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