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Feira do Livro

INTERVENÇÕES

Intervenção do Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, Prof. Doutor Manuel Sobrinho Simões
Rio de Janeiro, 11 de Junho de 2017

Confesso que gostei muito, mas mesmo muito, do convite do Senhor Presidente da República para presidir à Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas neste ano em que as bases logísticas são o Porto e o Brasil.

Como muitos dos amigos presentes na audiência sabem – e agradeço-lhes do coração a presença – como muitos sabem, dizia, é impossível arranjar quem goste mais do Porto e do Brasil do que eu. Arranjar quem goste tanto, pode ser. Mais, é impossível.

O dia 10 de Junho foi escolhido para estas Comemorações por se pensar que Camões terá morrido nesse dia, em 1580, ano em que Portugal passou a ter, como Rei, Filipe II de Espanha. Dizia-se que a morte de Camões se associara à morte da Nação. Felizmente não foi assim pois Portugal reconquistou, com brio, a sua independência em 1640.

Neste dia comemoramos os portugueses estejam onde estiverem e estando no Brasil comemoramos portugueses, brasileiros e muitos milhões de luso-brasileiros. Luso-brasileiros de hoje, de ontem e de há muitos anos. Por exemplo, no meu caso, e perdoem-me a personalização, o estudo dos meus gens revelou que tenho cerca de 90% de linhagens europeias, não tenho linhagens asiáticas, e tenho cerca de 3% de linhagens africanas subsarianas e 8% de linhagens ameríndias. Oito por cento de linhagens genéticas ameríndias a traduzir um ou mais ascendentes que viveram no Brasil e levaram filhos ou, mais provavelmente, filhas, para Portugal. Isto é, tenho mais ascendência ameríndia do que muitos participantes nesta cerimónia espantosa de luso-brasileirismo. Quem sabe tenho mais percentagem de linhagens ameríndias que uma amiga do coração, a Dr.ª Ierecê Aymoré, notável patologista óssea, nada e criada no Amapá, e um ser humano de eleição.

O meu exemplo, como o de muitos outros portugueses, mostra bem que a mistura genético-cultural não é exclusiva dos brasileiros. É partilhada pelos portugueses, embora haja uma diferença de escala. Como dizia Eça de Queirós, os portugueses são a semente e os brasileiros o fruto.

Mas lá que somos dois povos únicos no mundo pela diversidade genético-cultural, lá isso somos. E criámos sociedades com muitas e variadas gentes, de comportamento plástico, tolerantes em termos religiosos, avessas aos extremismos pseudo-identitários que irrompem um pouco por todo o lado

Apesar da variedade genético-cultural há elementos comuns de que a língua é o mais importante, logo seguida pela afetividade e a cultura.

A língua é mesmo um elemento importantíssimo e nunca mais se esquece quando na floresta amazónica, ou no sertão nordestino, se ouve uma mãe a chamar Fátima à filha e a falar com ela em português. Tão pouco se esquece a desconfiança do miúdo que nos guiou em Lençóis na Chapada Diamantina ao perguntar-me “Onde aprendeste a falar português?”. E quando eu o interroguei “porque é que perguntas isso?”, me respondeu “É que falas um português embolado” (Um parêntesis para dar conta de que nos sentimos bastante humilhados quando nos perguntam se somos argentinos). Isto é, a língua portuguesa é constituída por muitas “sublinguas” a traduzir, mais uma vez, a diversidade genética-cultural das nossas populações.

O mesmo se passa em relação à língua escrita. Fiz peregrinações ás casas e aos lugares de culto de Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado e em todos eles me emocionei com as diferentes atmosferas e as diferentes “línguas” . Como também me emocionei quando fui de ónibus a partir de Belo Horizonte ver a casa-e-tenda, em Cordisburgo, onde nasceu Guimarães Rosa, um dos meus escritores favoritos, cultor de um português extraordinário mas diferente do de Machado de Assis, Eça ou Saramago.

Não vou estar a aborrecê-los com as minhas emoções em terras brasileiras mas não calculam o que é serpentear nos canais de Florianopolis e encontrar a cultura e os bordados açorianos, passear em Belem e ver as padarias de compatriotas escondidas pelas mangueiras ou ir aos sítios mais modernos, como o Inhotim em Minas, e sentirmo-nos sempre em casa. Pelas “línguas”, pelos afetos e pelas culturas.

O desafio, agora, é juntar a este conjunto notável de “subjetividades”, a vontade de fazer, e fazer bem, com seriedade e competência.

Temos uma longa e frutuosa experiência de colaboração com instituições brasileiras no domínio da medicina em geral e da patologia em particular. A nossa colaboração iniciou-se em 1980 mas só se desenvolveu, a sério, a partir dos primeiros anos da década de 90. Desde essa altura tivemos várias centenas de estagiários brasileiros (cientistas, residentes e especialistas) no Porto e dezenas de interações profissionais e académicas por todo o Brasil.

No que diz respeito especificamente ao Rio de Janeiro estamos numa fase de reativação das colaborações com o Instituto Nacional de Cancer (INCA), a Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Universidade Federal Fluminense, entre outras instituições. Tenho também muito gosto de ser Membro Honorário Estrangeiro da Academia Nacional de Medicina do Brasil que tem a sua sede no Rio e de sermos colaboradores persistentes da Sociedade Brasileira de Patologia, com quem organizámos os dois primeiros Congressos Intercontinentais de Patologia. O primeiro, em 2000, na Ilha da Madeira e o segundo, em 2004, na Foz do Iguaçu.

Tenho a certeza que o modelo de colaboração luso-brasileira do futuro, não só na medicina como em muitas outras áreas, passa pela potenciação de sinergias estabelecidas com base nas relações interpessoais e interinstitucionais. Será uma colaboração alicerçada na qualidade das pessoas e dos projetos, virada para a competição internacional e assente em modelos com avaliação independente e recompensa ao mérito.

Para além dos bons exemplos na área da saúde e em outras áreas como as engenharias, gostaria de terminar com o que penso poder ser usado como uma metáfora do futuro da colaboração luso-brasileira. Refiro-me ao Museu Iberê Camargo, em Porto Alegre, que visitei há um par de anos e me proporcionou um orgulho imenso. O museu foi desenhado por Álvaro Siza (para nós, Siza Vieira) e é um edifício mágico, de uma beleza inacreditável. Foi feito por um português, portuense e amigo de longa data, num país que tem dos melhores arquitetos do mundo. (E sei do que falo pois já fiz vários “tours” perseguindo as obras de Niemeyer por todo o Brasil). Repito, o Museu Iberê Camargo é uma metáfora expressiva do que deverá ser a colaboração luso-brasileira do futuro.

Estou feliz por estar entre amigos e por ter tido a oportunidade de falar da minha fixação pelo Brasil. Estou convencido que a circunstância de ter uma grande percentagem de linhagens genéticas ameríndias não contribuiu para esta minha ligação, mas é uma razão adicional para agradecer ao Senhor Presidente da Republica ter-se lembrado de mim para presidir à Comissão Organizadora das Comemorações do 10 de Junho.

Muito obrigado Prof. Marcelo Rebelo de Sousa por me ter convidado e muito obrigado, minhas Senhoras e meus Senhores, por me terem escutado.

 
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