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Feira do Livro

INTERVENÇÕES

Intervenção do Presidente da República na Sessão Solene Comemorativa dos 75 anos Liga Portuguesa contra o Cancro
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 4 de abril de 2016
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Vou afastar-me por uns minutos do que, em qualquer caso, vos direi a seguir, para cumprimentar de forma especial antes do mais, o Senhor Ministro da Saúde.

A sua presença aqui é um sinal de atenção constante a uma causa cimeira nacional portuguesa, mas também é, e conhecemo-nos há muitos anos, a certeza de que pode vir a ser um protagonista importante num verdadeiro pacto da saúde na sociedade a que pertencemos.

Tenho para mim que é um pacto que já existe, não formalizado, para o qual a Fundação Calouste Gulbenkian que já deu um importantíssimo contributo e aceitação de princípios fundamentais pelos mais variados quadrantes da vida nacional.

É uma abertura de caminho para um pacto que antes de ser formalizado, já existe. E por falar na Fundação Calouste Gulbenkian como não cumprimentar como uma velha amizade, mas também com gratidão pessoal e institucional o contributo que continua a dar, neste como noutros domínios da saúde em Portugal, quando falei na abertura para um verdadeiro pacto da saúde não posso esquecer esse contributo, contributo não apenas nacional, mas internacional da Fundação, como contributo existiu e foi hoje aqui recordado, no apoio à Liga Portuguesa contra o Cancro.

Uma das múltiplas causas que mereceu o apoio da Fundação. Bem hajam!

Como antigo filatelista que sou, dos tempos da minha infância e adolescência, naturalmente cumprimento o Senhor Presidente dos Correios de Portugal por esta emissão muito feliz e em si mesmo, também promissora.

Quanto ao Senhor Presidente da Liga Portuguesa contra o cancro, como não cumprimentá-lo ao agradecer o convite para aqui estar como não cumprimentá-lo pela instituição do Prémio com o magnifico nome de Patrono, o Professor Manuel Sobrinho Simões, está de parabéns a Liga e está de parabéns o justamente evocado.

Por falar no Professor Manuel Sobrinho Simões deixe-me agradecer-lhe não apenas a competência do investigador, mas também do pedagogo, mas o hino de esperança que constituiu a sua exposição.

Foi um hino de esperança, não foi mero voluntarismo, foi uma esperança num futuro diferente e melhor na sociedade portuguesa. E peço-lhe que transmita à sua colaboradora que o Presidente da República não considerou nada simplista a sua exposição, nem pouca coisa, sendo certo que nós sabemos, por experiência, que as colaboradoras dos Mestres às tantas por mimetismo se consideram elas próprias Mestres

E dito isto, escrevinhava eu, ontem, as breves palavras com que viria encerrar esta sessão inaugural de uma justa homenagem a 75 anos de vida de uma instituição de eminente utilidade pública, quando, uma a uma, começaram a vir-me ao pensamento dezenas de imagens do passado, algumas delas de um passado bem longínquo, mas não menos vivo.

Era criança e recordo, como se fosse hoje, entre 1955 e 1960, a visita qualificada e amiga dessa personalidade impar que era o Professor Francisco Gentil, aliás, professor de meu Pai e amigo, e o tema repetidamente versado do cancro e da sua luta pelo Instituto, que criara.

Na altura, uma causa ainda muito nova e muito importante, que ganhara vulto entre os anos 30 e 50. Recorde-se que o próprio Ministério da Saúde só nasceria em 1958, existindo até então uma modesta Subsecretaria de Estado para a Assistência Social.

Em 1961, adolescente, aparece na minha memória um discípulo de Francisco Gentil – Edmundo Lima Bastos. Do que evoco, menos extrovertido, menos alegre, mais circunspecto, mas também batalhador pela mesma causa. E muito empenhado no papel da Liga, que havia crescido e adquirira foros de cidade.

Na verdade, é nos anos 60 que a sua rede nacional se amplia. E aí testemunho o empenho de meu Pai, como colaborador a nível regional, orador e organizador de inúmeras campanhas de sensibilização, uma das quais, lembro-me perfeitamente, teve Amália Rodrigues como personalidade cimeira.

Foram décadas muito especiais, porque a sociedade portuguesa, vivendo em ambiente fechado, próprio de uma ditadura, aos poucos se ia apercebendo de uma realidade diferente, que não era apenas do foro dos profissionais da saúde, interpelava todas as áreas, da política à comunicação social, da psicologia à sociologia, da economia ao ambiente. Como é inevitável em toda a matéria de saúde, num sentido amplo do termo. Só que, naqueles anos 50 e 60, os níveis de alfabetização e o grau de fechamento social faziam aparecer como singular o que passaria a ser óbvio num tempo de informação e formação assinalado pela institucionalização democrática.

Senhor Ministro,
Senhor Presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro,

Se aqui evoquei estas imagens de há sessenta anos ou perto disso foi para que se entendesse o que representou a odisseia da Liga hoje homenageada. Odisseia essa, que foi, certamente, mais impressiva ainda nas décadas de 30 e 40, pelo que retenho do que ouvia, manifestado da boca do Professor Francisco Gentil.

As doenças oncológicas eram, então, algo de visto como inédito. As respostas correspondentes levavam tempo a materializar. A formação de uma associação, num país pouco associativo, com estruturas descentralizadas e dotada de parcos recursos constituíra um desafio de tomo. A que não foi estranha a energia indomável da Senhora D. Mécia Mouzinho de Albuquerque e da Condessa de Murça e, sobretudo, da vontade pioneira do Prof. Francisco Gentil.

Louvor é devido aos fundadores a e a todos quantos os apoiaram ou lhes sucederam.

Mas, se a fase inicial demandou inventiva e energia, a continuidade, dos anos 70 ao fim do século e ao virar para estes anos, não foi menos exigente.

Novos males a combater, diversificação no campo da oncologia, sucessão geracional, às vezes dificuldade na mobilização de camadas mais jovens, necessidade de a multiplicação de voluntários, ainda menores meios, inexcedível presença desses voluntários mas sobretudo capacidade de enquadramento na perseverança necessária para cumprirem a sua missão.

Ironias do destino, volvidos 50 anos sobre a minha primeira recordação de infância, coube-me, aliás, de modo muito pontual e regular e limitado, testemunhar há 5 anos as dificuldades de uma sobrevivência em momentos de crise.

Louvor, por isso, também, àqueles que deram sequência e dão hoje vida a uma instituição que não esgotou a sua missão, nem foi substituída na utilidade pública.

Muito pelo contrário – e é esta a terceira mensagem que vos quero deixar, para além da gratidão aos pioneiros e aos seus fiéis e laboriosos herdeiros: a Liga Portuguesa Contra o Cancro continua a ter uma missão a cumprir e essa missão reveste-se de patente utilidade pública, que foi reconhecida em 1966, quando agraciada com a Ordem de Benemerência e em 2006 quando agraciada com a Ordem de Cristo.

Eu decidi, como primeira condecoração no início do mandato presidencial, agraciar com a Ordem do infante D. Henrique que será entregue no termo da celebração dos 75 anos.

O que surgia como patologia excecional há 75 anos é um dado multiforme, mas generalizado, tocando todos os setores etários, sociais e geográficos da nossa sociedade.

Não há uma família portuguesa que o não conheça, em vários dos seus membros.

Por outro lado, o que se requer de informação, de formação, de educação, de partilha é cada vez menos incumbência só do setor público e cada vez mais apelo, solicitação aos setores social e privado, em particular não lucrativo

Por outras palavras, pede-se à sociedade civil que esteja mais atuante e influente junto das pessoas, das famílias, das comunidades. Antecipando, prevenindo, formando, como luminosamente explicou o Senhor Professor Doutor Sobrinho Simões.

Este é, aliás, um desafio atual e cimeiro para Portugal: ou vamos mais longe no envolvimento das pessoas e das suas organizações, mais próximos dos seus problemas, mais atentamente abertos a entender e a ajudar, ou perdemos todos em valores, em solidariedade, em capacidade para construir em conjunto um País mais justo, e, por conseguinte, mais Humano.

Todos devemos prezar a competência profissional, a excelência técnica, o rigor executivo.

Mas as Pátrias fazem-se de muito mais do que isso. Fazem-se de valores, de afetos, de serviços abnegados dos outros, de sentimentos, de gestos solidários. Essenciais também na formação, na prevenção, na cura, no controlo, na sensibilização.

Como cidadão, recordei o que vi ser muito do arranque da Liga Portuguesa contra o Cancro.

Na minha Família e nos seus amigos. Quando estavam muito longe de saber que iriam ser, todos eles, tocados pela realidade com que lidavam a pensar nos outros.

Como Presidente da República, agradeço, uma vez mais, em nome de Portugal,75 anos da Liga Portuguesa contra o Cancro. E incentivo-a a prosseguir, com a coragem e a juventude de sempre.

Porque a sua missão é a nossa missão. Servir Portugal!

 
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