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Intervenção na sessão de encerramento da IV edição de Lisboa do Fórum La Toja - Vínculo Atlântico

É uma honra participar pela primeira vez neste espaço de reflexão democrática e de diálogo, que é o Foro La Toja, e encerrar esta edição de 2026.

O tema escolhido não poderia ser mais pertinente: o futuro da Europa e a relação transatlântica. Não são assuntos separados, são dimensões de uma mesma realidade política, estratégica e civilizacional.

Para nós, portugueses e espanhóis, são dimensões que carregam o peso da História e da responsabilidade do presente: comos povos que fizemos do Atlântico uma ponte, não um limite e abraçámos a Europa como comunidade de destino.

Também por isso reafirmo que a opção europeia não é antagónica de relações transatlânticas, nem de cooperação com outras regiões do mundo.

Senhor Presidente,

Portugal e Espanha partilham mais do que uma península. Partilham uma memória longa – feita de travessias e encontros, de civilizações que aqui se cruzaram e de rotas que daqui partiram para transformar o mundo. Partilham também uma convicção fundadora: a de que o projeto europeu não foi apenas uma resposta à guerra, mas uma escolha de civilização.

Esse é o tema que nos une – portugueses e espanhóis – a crença visceral de que a Europa é uma causa que vale a pena defender, aprofundar e, quando necessário, reformar com coragem.

Mas defender a Europa não pode significar conservá-la tal como está. O mundo mudou. E a Europa que durante décadas pôde permitir-se o conforto de uma certa ambiguidade estratégica — protegida pela aliança atlântica, ancorada num comércio global relativamente estável, distante das guerras e das grandes tensões de poder — essa Europa já não existe.

Vivemos um tempo de transição e de inquietação.
As certezas do pós-Guerra Fria dissiparam-se.
O multilateralismo é posto à prova.
O direito internacional, que julgávamos consolidado, enfrenta ameaças constantes.
A guerra regressou ao continente europeu. A ameaça russa é constante.
As tensões geopolíticas intensificam-se.

A Europa enfrenta desafios sociais e demográficos marcantes: o envelhecimento da população e a baixa natalidade pressionam sistemas de saúde e de pensões.

Em simultâneo, enfrentamos desafios que não reconhecem fronteiras: das alterações climáticas à disrupção tecnológica, das migrações à segurança energética.

Vivemos hoje numa era de recomposição da ordem internacional. E a economia global, que parecia convergir para um modelo partilhado, revela-se um campo de competição sistémica. Neste contexto, a Europa que hesita é a Europa que perde. É difícil de compreender que o relatório DRAGHI tenha sido apresentado há mais de um ano e meio e a sua execução não conheça a luz do dia, quando a Europa precisa tanto de aumentar a sua competitividade.

Por isso, a primeira resposta que devemos à nossa geração é o aprofundamento político da União. Não como exercício burocrático — mas como ato de vontade coletiva. Uma Europa com capacidade de decidir, de falar com uma voz credível em política externa, de mobilizar recursos à escala dos desafios que enfrenta. Uma Europa que não fragmenta a sua ação pelos interesses imediatos de cada Estado-membro, mas que constrói, pacientemente e sem ingenuidade, uma soberania partilhada que nenhum Estado conseguiria exercer sozinho, para proteger os nossos povos e melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Isso exige reformas institucionais que há demasiado tempo adiamos. Exige superar o princípio da unanimidade em domínios onde a paralisia nos custa mais do que a decisão imperfeita.

A Europa do século XXI não deve ser governada com os instrumentos do século XX.

A defesa europeia não pode continuar a ser uma caminhada lenta, baseada apenas em coligações de vontade que se formam e desfazem conforme as conjunturas e as conveniências. A União Europeia precisa de um arranjo institucional sólido, eficiente e com recursos adequados, que integre outras democracias, tais como o Reino Unido e Noruega.

A segurança da Europa exige mais coordenação, melhores investimentos e uma visão verdadeiramente comum. Exige economias de escala. Exige comprar europeu. Exige melhor investimento. Não podemos depender de terceiros para defender os nossos interesses. Temos de impulsionar a autonomia tecnológica europeia.

A energia é outro domínio crítico.

Reduzir dependências externas e acelerar a transição para fontes sustentáveis não é apenas uma obrigação ambiental, é uma questão de soberania.

No plano tecnológico, a Europa precisa de liderar as grandes transformações digitais e não apenas regular.

Fortalecer o sistema científico, gerar tecnologia de duplo uso, estimular a competitividade europeia: são condições do futuro, não opções de política.

A autonomia estratégica que defendo passa também por uma Europa mais próxima dos seus cidadãos.

Capaz de responder às desigualdades, de promover coesão social e territorial, de garantir que ninguém fica para trás nas transições que estamos a viver. Num cenário de acelerada transição tecnológica, impulsionada pela IA, a Europa precisa de proteger os seus cidadãos e de liderar democraticamente os processos, garantindo que a Inteligência Natural decide sobre a Inteligência Artificial.

A autonomia estratégica da Europa não é um slogan. É uma necessidade. É a capacidade de definir os nossos interesses, de os proteger com instrumentos próprios, e de não dependermos exclusivamente de decisões tomadas noutras capitais — por muito aliadas que essas capitais sejam. Uma Europa autónoma não é uma Europa fechada. É uma Europa que pode escolher os seus parceiros em liberdade, e não por falta de alternativa.

E é precisamente aqui que a questão transatlântica se coloca com toda a sua acuidade.

A relação com os Estados Unidos da América é, e deverá continuar a ser, um dos eixos estruturantes da política europeia. A NATO é mais do que uma estrutura militar: é a expressão institucional de uma comunidade de segurança que enfrentou as maiores ameaças do século XX e que permanece necessária perante as do século XXI, ainda que nem todos o compreendam.

Mas as relações transatlânticas não podem ser apenas uma herança que administramos. Têm de ser uma parceria que renovamos. Uma parceria entre iguais — em que a Europa afirma os seus interesses, contribui com o seu peso e não abdica dos seus valores — incluindo quando esses valores nos colocam em tensão com as posições de Washington. A amizade verdadeira não exige concordância permanente. Exige lealdade, reciprocidade e respeito pela soberania dos Estados.

Esta renovação da relação transatlântica implica também corrigir um erro de perspetiva que por demasiado tempo nos condicionou: a ideia de que “o Atlântico” começa em Lisboa e termina em Nova Iorque.

O Atlântico é muito mais do que isso.

A recente aproximação entre o Canadá e a Europa — num momento em que Ottawa procura diversificar as suas ancoragens estratégicas — é uma oportunidade que não podemos desperdiçar. O Canadá partilha com a Europa não apenas valores liberais e democráticos, mas também uma visão do multilateralismo, do direito internacional e da cooperação que o torna um parceiro natural. A Cimeira UE-Canadá deve concretizar um aprofundamento real, não uma fotografia diplomática.

E há a América Latina.

Portugal e Espanha têm aqui uma responsabilidade particular — e também um ativo singular. Somos a porta ibérica de entrada de uma região com mais de 600 milhões de habitantes, democracias consolidadas ao lado de relações políticas profundas e recursos naturais estratégicos. Uma América Latina que oscila entre a tentação do isolamento e a sedução de parcerias que nem sempre respeitam a sua soberania.

A Europa deve oferecer uma alternativa genuína. Não uma relação paternalista, herdeira dos equívocos coloniais. Mas uma parceria de desenvolvimento, de investimento, de transferência tecnológica e de construção institucional, assente no respeito mútuo e na visão de longo prazo. O Acordo UE-Mercosul, tantas vezes adiado, entra finalmente em vigor depois de amanhã. Uma oportunidade que devemos aproveitar, aperfeiçoar e potenciar como exemplo para novas cooperações.

A relação transatlântica do século XXI não é um eixo bilateral. É uma rede. E Portugal e Espanha — pela história, pela língua, pelas pontes que construímos com o Brasil, com a Argentina, com o México, com tantos outros — estamos em posição única para ajudar a Europa a tecer essa rede com inteligência e com propósito.

Uma palavra final.

O futuro da Europa não se decide em discursos de encerramento. Decide-se nas escolhas concretas que cada governo, cada parlamento, cada instituição europeia fará nas próximas semanas, nos próximos meses, nos próximos anos.

Mas os discursos podem ajudar a nomear o que está em jogo. E o que está em jogo é simples: ou a Europa escolhe ser sujeito da história ou resigna-se a ser objeto das escolhas de outros.

Estou certo de que Portugal e Espanha escolheram ser sujeitos.

Muito obrigado.

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