Saltar para o conteúdo (tecla de atalho c) Mapa do Sítio
Este sítio utiliza cookies apenas para melhorar a funcionalidade e a sua experiência de utilização. Ao navegar neste sítio está a consentir a utilização dos mesmos.

Intervenção na Cerimónia Militar Comemorativa do 115.º aniversário da Guarda Nacional Republicana

Há 115 anos, Portugal decidiu confiar a uma instituição armada uma missão singular: a de nunca abandonar ninguém. A GNR nasceu com a vocação de estar ao mesmo tempo em todo o lado. Nas estradas de montanha e nas aldeias mais remotas, nas fronteiras e nas festas populares, no rescaldo das catástrofes e no silêncio das rondas noturnas.

Hoje celebramos, acima de tudo, as pessoas que vestem esta farda e que, ao vesti-la, assumem uma responsabilidade que vai muito além do que qualquer contrato de trabalho pode descrever. Vi isso há poucos meses, quando visitei as zonas do Centro do país afetadas pelas tempestades. Nos meios de socorro, nas equipas de busca, nas ruas enlameadas das aldeias do interior, estava a Guarda Nacional Republicana. Senti isso há poucas semanas quando dois camaradas vossos foram baleados no cumprimento do seu dever.

Às mulheres e aos homens da GNR que hoje desfilam nesta parada, e aos que não estão aqui porque estão em missão – sim, porque há sempre alguém em missão –, quero dizer uma coisa simples: Portugal sabe o vosso esforço, o esforço que cada um de vós coloca no cumprimento da vossa missão. Enquanto Presidente da República, agradeço-vos reconhecidamente em nome de Portugal.

Sei que escolheram uma profissão que exige muito. Que a família espera muitas vezes em casa sem saber a hora de chegada. Que há noites que ficam gravadas na memória por razões que não se partilham facilmente. Que o risco e a coragem fazem parte do vosso quotidiano.

Dirijo-me, por isso, hoje a todos vós para abordar um tema que exige reflexão séria e ação responsável: o respeito pela autoridade democrática e, em particular, a proteção dos homens e mulheres que, diariamente, garantem a nossa segurança.

Nos últimos anos, têm vindo a público episódios preocupantes de agressões a agentes das forças de segurança. Estes acontecimentos não são apenas ataques individuais; são sinais de uma erosão de valores fundamentais que sustentam a convivência de uma sociedade livre.

Numa democracia, a autoridade não é um instrumento de imposição arbitrária. É, antes de mais, uma expressão da vontade coletiva, legitimada pelo Estado de direito. Quando um agente da autoridade atua, não o faz em nome próprio, mas em nome de todos nós – para proteger direitos, garantir a ordem pública e assegurar que a liberdade de cada um não colide com a liberdade dos outros.

Desrespeitar a autoridade legítima, agredir quem nos protege, é fragilizar a nossa liberdade. Em sociedade, não há liberdade sem regras. Não há direitos sem deveres. E não há segurança sem respeito mútuo.

É, por isso, essencial promover uma cultura de respeito democrático: respeito pelas instituições, pelas leis e pelas pessoas que as representam no terreno. Esse respeito não se impõe apenas por via legal; constrói-se na educação, no exemplo e no diálogo.

Enquanto comunidade, devemos reafirmar claramente que a violência nunca é aceitável.

Devemos valorizar e apoiar os nossos agentes de segurança, reconhecendo o seu serviço e exigindo, ao mesmo tempo, que a sua atuação seja sempre pautada pelo profissionalismo, pela proporcionalidade e pelo respeito pelos direitos humanos.

Este é um compromisso de todos: do Estado, das escolas, das famílias e de cada cidadão. Só assim conseguiremos fortalecer a confiança nas instituições e garantir que Portugal continua a ser um país onde a liberdade e a segurança caminham lado a lado.

É assim com elevada honra que vos saúdo nesta cerimónia em que celebramos um marco de grande significado: os 115 anos da Guarda Nacional Republicana.

Mais de um século de serviço dedicado a Portugal e aos portugueses.

Ao longo destes 115 anos, a GNR manteve-se fiel a um conjunto de valores intemporais – a honra, a disciplina, a coragem e o serviço público – que continuam hoje a orientar, com firmeza e sentido de missão, a ação das suas mulheres e dos seus homens. Na dedicação de quem, todos os dias, assume a responsabilidade de servir e proteger.

A estas mulheres e a estes homens é devido um reconhecimento justo e sentido: pelo profissionalismo com que desempenham as vossas funções, muitas vezes longe dos holofotes; pelo sacrifício pessoal e familiar que a missão exige, com horários exigentes, risco permanente e disponibilidade constante.

São rostos de uma entrega que não se mede apenas em resultados operacionais, mas também na confiança que inspiram junto dos portugueses.

É esta capacidade de estar próximo, de ouvir e de proteger, que distingue a ação da Guarda Nacional Republicana e reforça o seu papel insubstituível na sociedade portuguesa.

Este compromisso assenta em valores sólidos e inegociáveis: a lealdade à Constituição da República, o respeito pelo Estado de Direito, a defesa da segurança, da liberdade e da tranquilidade pública.

Princípios que orientam cada intervenção, cada decisão, cada ação no terreno e que reforçam, dia após dia, a confiança dos cidadãos.

Por isso, importa afirmá-lo com clareza: a Guarda Nacional Republicana deve continuar a dar o exemplo, no rigor, na integridade e no serviço ao interesse nacional.

Que este sentido de dever permaneça como marca distintiva da instituição e como apelo permanente às suas gerações presentes e futuras.

A missão da GNR distingue-se também pelo seu profundo lado humano.

Esta presença é particularmente relevante nas zonas de menor densidade populacional e mais isoladas do território, onde, muitas vezes, a Guarda representa o rosto mais próximo do Estado.

A sua atuação quotidiana vai além da segurança – traduz-se num acompanhamento atento das comunidades, numa resposta próxima às suas necessidades, numa presença efetiva em todo o território nacional.

Esta dimensão humana expressa-se, de forma clara, no apoio às pessoas mais vulneráveis.

Através de programas de proximidade, como o “Apoio 65 – Idosos em Segurança”, a Guarda Nacional Republicana promove a prevenção, a proteção e a sensibilização de muitos portugueses que se encontram numa situação de isolamento.

O mesmo podemos afirmar com o programa “Escola Segura”, protegendo as nossas crianças e jovens.

São programas que refletem um compromisso que ultrapassa a intervenção reativa, privilegiando a presença preventiva e o contacto direto com os cidadãos.

É nesta conjugação entre autoridade e proximidade que se afirma a humanização da ação da Guarda Nacional Republicana.

Uma autoridade exercida com equilíbrio, respeito e empatia, que reconhece em cada cidadão não apenas um destinatário da lei, mas uma pessoa a proteger.

Servir com determinação e, sempre, com humanidade – este é, em última análise, um dos traços mais distintivos da Guarda.

Quero igualmente destacar a natureza versátil da GNR, uma força dotada de um leque alargado de competências que lhe permite responder, com eficácia, às múltiplas exigências da sociedade contemporânea.

Destaco o seu papel determinante no policiamento rodoviário e na fiscalização do trânsito, contribuindo para a prevenção da sinistralidade e para a promoção de comportamentos mais seguros nas nossos estradas. E como precisamos de diminuir a sinistralidade nas estradas de Portugal.

A sua presença visível e especializada é um fator essencial de dissuasão e proteção, salvaguardando vidas em todo o território. Um esforço a que temos de dar mais ambição.

Destaco igualmente as atividades de controlo de fronteiras marítimas, com funções de vigilância e fiscalização ao longo da costa, contribuindo para a defesa da soberania e para o combate a atividades ilícitas.

E o envolvimento em missões internacionais, onde a GNR tem projetado o nome de Portugal em operações de cooperação, estabilização e apoio à paz.

A presença dos comandantes de forças estrangeiras nesta cerimónia é, por si só, expressão eloquente deste reconhecimento além-fronteiras.

A sua atuação estende-se ainda à proteção e ao socorro, com intervenção em cenários de incêndios rurais, catástrofes naturais e outras emergências, onde a prontidão e a coordenação são decisivas.

Esta realidade tornou-se particularmente visível quando em agosto passado percorri as aldeias e vilas fustigadas pelo incêndio que começou em Arganil. Desloquei-me a vários postos da GNR, nos distritos de Coimbra, da Guarda e de Castelo Branco, para testemunhar a gratidão e o reconhecimento pelo trabalho desenvolvido, sublinhando a vossa presença no terreno em contexto de crise.

Há semanas, durante a Presidência Aberta, em contacto direto com populações, autarcas, empresas e operacionais, tornou-se claro que a resposta do Estado depende, em larga medida, da capacidade das forças de segurança para permanecerem junto das pessoas, mesmo quando tudo à sua volta se torna muito difícil.

Os testemunhos recolhidos foram inequívocos: em vários momentos críticos, os operacionais estiveram sempre no terreno, apesar de árvores caídas, estradas obstruídas e falhas de energia e comunicação.

E ficou também uma lição para o futuro: os postos da GNR, à semelhança de outras infraestruturas essenciais, devem dispor das condições mínimas de continuidade que lhes permitam cumprir a sua missão em cenários de emergência.

Porque, num território vulnerável a fenómenos atmosféricos extremos, a GNR não é apenas uma força de segurança. É uma estrutura de confiança, de proximidade e de continuidade do Estado.

A vossa ação, sustentada numa visão clara e num profundo sentido de serviço, assegura a continuidade dos valores que definem a Guarda e a sua capacidade de adaptação a um mundo em constante mudança.

Guardas de Portugal,

Não posso deixar de notar, com genuína satisfação, a crescente presença de mulheres na GNR – ainda que, em relação ao total de efetivos, a percentagem permaneça reduzida, cerca de 9%.

O caminho que se tem percorrido é, porém, encorajador. Em 2025, uma mulher assumiu pela primeira vez um Comando Territorial. Em 2026, foi promovida a General a primeira mulher na história da Guarda.

São marcos de enorme significado institucional, que refletem uma abertura crescente ao mérito e à diversidade e que tornam a instituição mais representativa da sociedade que serve.

Por fim, uma palavra sobre o futuro.

Os desafios atuais e os que se avizinham são cada vez mais complexos: ameaças emergentes à segurança, impactos crescentes das alterações climáticas, transformações tecnológicas aceleradas.

Neste contexto, a Guarda Nacional Republicana deve continuar a afirmar-se pela sua capacidade de antecipação e adaptação, investindo na inovação, na formação contínua e na modernização tecnológica.

Mas este caminho exige também uma renovação sustentada dos seus recursos humanos, tornando as carreiras na Guarda cada vez mais apelativas para as atuais e novas gerações.

Só assim será possível garantir uma instituição preparada, resiliente e fiel à sua missão.

Termino reafirmando uma palavra de profunda gratidão às mulheres e aos homens da Guarda Nacional Republicana, pelo compromisso, pela coragem e pelo serviço exemplar que prestam diariamente a Portugal e aos portugueses.

Uma gratidão que se estende, com igual reconhecimento, às vossas famílias, que partilham os sacrifícios desta missão exigente e são um pilar essencial no apoio a quem serve.

Cento e quinze anos depois, a missão mantém-se: servir Portugal, com honra, dedicação, tranquilidade e confiança.

Muito obrigado pelo vosso trabalho!