Um amigo escritor diz-me que, muitas vezes, a meio da escrita de um romance — quando sofre das chamadas «crises criativas» — vai até uma esplanada perto de casa e se limita a sentar-se e a fazer uma coisa muito portuguesa: ficar à escuta.
O seu gesto coincide e encaixa perfeitamente com outro hábito muito português, que é o de contar histórias, o de falar sobre o mundo contando histórias aos outros.
E há ali uma espécie de encontro entre o escritor que precisa de escrever histórias e os contadores de histórias que, aparentemente, não sabem como elas são importantes e fazem parte de um livro sempre prestes a escrever-se.
Esse encontro parece ter acontecido entre São Gonçalves e os trinta contadores das suas autobiografias, das suas histórias de vida no Grão-ducado do Luxemburgo. Os testemunhos transcritos no livro dão conta de uma parte essencial da emigração portuguesa para este país que os acolheu, e onde eles edificaram a sua casa, isto é, a sua vida, a sua família, as suas escolhas, o seu refúgio e a sua liberdade.
A sua identidade é portuguesa e luxemburguesa. É europeia e portuguesa.
E as suas histórias são narrativas de portugueses que fazem aquilo que sempre fizemos ao longo da história: ser portugueses em todo o lado, transportando consigo uma identidade que se transforma com o tempo e que se deixa contaminar pela generosidade de quem nos acolhe, mas que não apaga nunca as suas raízes.
Ouvir os outros é uma coisa que devemos fazer mais vezes, porque há sempre matérias a aprender: experiências, revelações, tragédias, vidas raras, vidas exemplares, e também finais felizes.
As comunidades portuguesas, se as escutarmos, contam-nos histórias assim: prodigiosas e enternecedoras, mesmo quando recordam momentos de amargura e de perda, mesmo quando evocam as dificuldades e a tentação de desistir.
Mas são sobretudo histórias de superação, de partilha e de integração.
São histórias que nos ensinam modos diferentes de sermos portugueses.
Assim foram 60 anos portugueses aqui no Luxemburgo.
Assim são os 30 testemunhos recolhidos por São Gonçalves, a quem agradeço a iniciativa de organizar este livro, bem como ao jornal Bom Dia e à editora Oxalá.
Este livro dá-nos a oportunidade de agradecermos a esses portugueses e luso-luxemburgueses que nos contaram as suas histórias e que, também eles, podiam ser personagens de um romance sempre prestes a escrever-se em qualquer uma das nossas línguas.
Muito obrigado.