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Intervenção no Jantar oficial oferecido pelo Presidente da República de Cabo Verde

Começo por saudar todos os presentes e, naturalmente, por agradecer a Sua Excelência o Presidente da República José Maria Neves o convite que me dirigiu para visitar Cabo Verde e a forma calorosa como me acolheu e à comitiva que me acompanha, que rapidamente nos fez sentir o significado da “morabeza” cabo-verdiana.

Esta é a minha primeira Visita de Estado. A escolha de Cabo Verde é um sinal da parceria de excelência que Portugal mantém com este país amigo, Cabo Verde. Mas simboliza também o carácter prioritário que atribuo às relações com os países lusófonos, eixo transversal da política externa portuguesa.

Relações fortes que mantemos com Cabo Verde e citando, pedindo autorização ao Senhor Presidente da República, José Maria Neves, «as relações fortes, elevadas e excelentes», como teve oportunidade de afirmar publicamente.

Excelência desta relação que, desde logo, se reflete no pluralismo da minha delegação, que integra o Governo Português, como também deputados que representam todos os grupos parlamentares da nossa Assembleia da República.

As relações entre os nossos países são intensas, dinâmicas e diversificadas. A 7.ª Cimeira bilateral, realizada em janeiro de 2025, reflete essa profundidade do nosso relacionamento político e económico e a abrangência da nossa cooperação, bem espelhada na assinatura de 30 instrumentos bilaterais, nas mais diversas áreas da governação.

Mas, gostaria de centrar estas palavras de agradecimento na natureza dos laços que nos unem e que vão muito além de quaisquer Acordos que podemos, ou possamos assinar.

Refiro-me aos laços que unem comunidades e pessoas e que são tecidos pela confiança, pelo respeito, pelo espírito de entreajuda e pela solidariedade.

Laços que não se constroem da noite para o dia, mas ao longo do tempo.

Laços que são facilitados pelas ligações históricas e culturais, pela partilha de uma língua comum, pelas ligações familiares e de amizade.

E, claro, laços que são consolidados pelas nossas diásporas, que em tanto enriquecem as relações entre os dois países, com o seu trabalho, o seu empenho, o seu talento, o seu conhecimento, o seu investimento e, tantas vezes, o seu sacrifício.

Laços, ainda, impulsionados pelos intercâmbios nas mais diversas áreas, seja ao nível da sociedade civil, da cultura, das artes, da literatura, da música e, como não poderia deixar de referir hoje, também através do desporto.

Porque são esses laços que nos fazem vibrar de emoção, quer com a Seleção das Quinas, quer com a Seleção dos Tubarões Azuis, que aproveito para felicitar, na pessoa do Senhor Presidente, pela inspiradora estreia no Campeonato Mundial de Futebol, que em poucos dias colocou Cabo Verde nas bocas do mundo pelas melhores razões. Os Tubarões Azuis avivaram a pureza do desporto e provaram que o talento e o querer coletivo nos levam longe.

Aproveito, Senhor Presidente, para desejar o mesmo sucesso às Tubarões Azuis da Seleção Feminina de Futebol, que se estreará dentro de dias no Campeonato Africano das Nações.

Também na literatura, na música, nas artes, sentimos Cabo Verde como se fizéssemos parte deste maravilhoso país. Recordo, a título pessoal, a forma como em Portugal sofremos verdadeiramente com o adeus a Ildo Lobo, a Cesária Évora ou a Bana. Nós fazíamos parte da sua música porque fomos, de certa maneira, filhos dessa sensibilidade, filhos dessa poesia, filhos da música dos Tubarões desde o seu primeiro disco.

E, também de certa maneira, fomos filhos da poesia de Cabo Verde. Recordo a experiência de pela primeira vez ter escutado a poesia de Eugénio Tavares, de quem no próximo ano se assinalam os 160 anos do seu nascimento.

Sem essa música, sem essa literatura, sem essa poesia, a humanidade seria muito mais imperfeita, muito menos interessante e muito menos bela.

Essa beleza leva-me a dizer-lhe, Senhor Presidente, que somos todos filhos de B. Leza, vosso grande poeta e músico. Somos todos leitores de João Vário, esse notável cientista e poeta maravilhoso. Todos nos comovemos, na nossa adolescência, com as páginas de “Chiquinho”, de Baltasar Lopes. A minha geração, que foi leitora de “Flagelados do Vento Leste”, de Manuel Lopes, ou de “A Invenção do Amor”, de Daniel Filipe, tornou-se também leitora de Arménio Vieira ou Germano Almeida, ambos prémio Camões. Com eles aprendeu uma língua inteiramente nova: a da irmandade dos nossos destinos.

É tudo isto que torna a relação entre Portugal e Cabo Verde tão especial, tão fraterna, tão sólida e tão perene. São laços humanos que cimentam a nossa cooperação e nos dão a certeza de que continuaremos a ser parceiros mutuamente prioritários, tanto no âmbito bilateral, como nos fóruns multilaterais, onde podemos unir esforços na defesa dos interesses comuns e dos sólidos valores democráticos que partilhamos.

Cabo Verde pode contar com Portugal, e estou certo que Portugal também pode contar com Cabo Verde. É isto que fazem os verdadeiros amigos.

E perdoem-me se fujo ao guião, mas não posso, neste momento com grande emoção, deixar de recordar dois jovens, já não éramos adolescentes, éramos mesmo jovens, que numa noite na Costa da Caparica, em Lisboa, falávamos dos projetos e dos sonhos que tínhamos para os nossos dois países. Um viria a tornar-se Primeiro-Ministro e hoje Presidente de Cabo Verde. O outro foi eleito e escolhido pelo povo português para  Presidente da República.

Encontramo-nos aqui. Já não temos aquela juventude dessa noite fantástica na Costa de Caparica, nesse jantar de despedida, quando veio para Cabo Verde. Mas mantemos o sonho. O sonho de fazermos o melhor pelos nossos dois países. Um sonho que une todos os homens e as mulheres que estão nesta sala.

E um sonho que quero expressar neste brinde, de que as gerações vindouras e as atuais continuem a aprofundar as relações de amizade, de prosperidade, de progresso e de cooperação entre estes povos e estes países. E brindo também à sua felicidade e à da sua família e à prosperidade do povo amigo de Cabo Verde.

Muito obrigado.

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