Senhor Presidente da Câmara Municipal da Batalha, Dr. André Sousa, agradeço o convite para estar presente nesta Sessão Solene Comemorativa do Dia do Município. E sublinho, desde já, a vontade de partilhar convosco a homenagem e o reconhecimento devidos às empresas, instituições, associações e aos voluntários que contribuíram para superar a crise e para a reconstrução deste concelho após a tempestade Kristin.
Minhas Senhoras e meus Senhores,
Quando recolhia informação para esta intervenção, deparei-me com o título de uma notícia que dizia: “Vila da Batalha volta a celebrar depois de meses de reconstrução”.
Digo deparei-me porque me obrigou a parar. A refletir sobre esta vertigem, no tempo e nos sentimentos.
Há pouco mais de meio ano, na madrugada de 28 de janeiro, toda esta região se confrontou com uma catástrofe. A tempestade Kristin devastou o território. Destruiu casas, florestas, equipamentos. E provocou mortos.
Nos primeiros dias, a inquietação resultante do isolamento, da tristeza e da ansiedade acabou por aumentar o número de vítimas. Em particular pela queda de pessoas que tentavam recuperar os telhados das suas próprias casas.
Eu estive aqui. E partilhei o desespero de muita gente. Percebi como era impossível resistir a ventos que chegaram a atingir 200 quilómetros por hora. Mas também era percetível outra coisa: o Estado não estava preparado para enfrentar tanta devastação.
Depois, no decorrer da Presidência Aberta, acompanhei com mais detalhe as consequências da tempestade e o conjunto de medidas que estavam a ser desencadeadas. Foi produzido um relatório que, daqui a algum tempo, irei retomar para fazermos um ponto de situação e avaliarmos as medidas preventivas para enfrentarmos futuras tempestades. Até porque o presente sinaliza, todos os dias, novos perigos e com uma intensidade inédita. Não temos tempo a perder. Partimos atrasados.
Minhas Senhoras e meus Senhores,
Os momentos de crise são também reveladores. Fazem-nos despertar para a importância das pessoas e das estruturas de proximidade. Da solidariedade humana. De quem nos pode socorrer de imediato.
Destaco, entre tantos outros, as Forças Armadas, os bombeiros, os agentes das forças de segurança, as estruturas de saúde e de solidariedade social, os técnicos das companhias de eletricidade, de água e de comunicações.
E, como elo central desta rede de gestão de crise, os autarcas cujo papel foi determinante e não se esgotou naqueles dias. Prolongou-se por todos estes meses. E vai continuar, porque há ainda muito por fazer.
A todos eles, e a todas as pessoas que integram esta estrutura de apoio às populações, o meu agradecimento e a minha homenagem. Um reconhecimento que estendo às empresas e instituições que deram um forte contributo para que as pessoas pudessem retomar as suas vidas.
Minhas Senhoras e meus Senhores,
O processo de reconstrução é também ilustrativo de como temos de refletir sobre a nossa segurança e a nossa autonomia. Desde os meios mais simples, comunicações de emergência ou geradores de energia, até aos sistemas complexos de financiamento que permitam debelar as dificuldades o mais depressa possível.
O exemplo do município da Batalha, que recorreu a um empréstimo de cerca de quatro milhões de euros para financiar investimentos e responder aos danos da tempestade, é revelador de como o Estado precisa de mais agilidade e de mais descentralização na tomada de decisões.
A resposta das companhias de seguros. A lentidão das operadoras de comunicações e das redes elétricas. A falta de mão de obra para a reconstrução. São fatores que exigem ponderação séria.
No imediato, partilho o ponto de vista do Senhor Presidente da Câmara da Batalha, que definiu como prioridade das prioridades a prevenção dos incêndios. O risco é elevado, sucedem-se as vagas de calor, e nesta região há ainda muitas árvores caídas devido à força dos ventos. É uma preocupação legítima e urgente.
Minhas Senhoras e meus Senhores,
Sabemos que há ainda outro tipo de sinais. Mais difíceis de avaliar. Silenciosos. De natureza mais sensível, que se manifestam sobretudo nos momentos de ansiedade ou de medo.
Há muitas feridas por sarar. E nem todas se veem nos telhados ou nas estradas. Algumas ficaram na memória de quem passou aquelas noites sem eletricidade, sem contacto com o exterior, sem saber se a casa resistiria. Essas feridas também merecem cuidado e acompanhamento porque uma comunidade não se reconstrói apenas com betão e madeira.
Mas hoje é dia de celebrar. E é bom que assim seja.
Como dizia o título da notícia, “Vila da Batalha volta a celebrar depois de meses de reconstrução”.
Referiam-se às Festas da Batalha, que estão a decorrer junto ao Mosteiro. É tempo de descomprimir, porque este não foi um ano fácil.
E há algo profundamente simbólico em celebrar aqui, à sombra deste Mosteiro. Um monumento que foi erguido ao longo de séculos, atravessou terramotos, incêndios e guerras e continua de pé. É a prova de que o que se constrói com determinação resiste ao tempo. E de que reconstruir faz parte, desde sempre, do que este país sabe fazer.
Faço votos para que o programa “Reerguer a Batalha” se concretize plenamente e que seja aproveitado não apenas para repor o que existia, mas como oportunidade real de melhorar as condições de vida das pessoas desta região.
Porque reconstruir não é voltar ao que era. É construir melhor do que estava.
Aos batalhenses, o meu respeito pela forma como enfrentaram estes meses. E os meus parabéns pelo Dia do Município.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Celebrar o Dia Municipal da Batalha é celebrar uma terra que conhece, como poucas, o valor da independência e da capacidade de decidir o seu próprio destino.
Aqui, no Mosteiro de Santa Maria da Vitória, está inscrita uma das páginas maiores da nossa História: Aljubarrota e a afirmação da independência nacional.
Mas a História não é apenas memória. É uma responsabilidade que recebemos e que temos de transmitir às próximas gerações.
Em 1385, a independência de Portugal estava em causa no campo de batalha.
Hoje, as batalhas são diferentes.
Vivemos num mundo globalizado, extraordinariamente interdependente, onde as fronteiras económicas, tecnológicas e digitais são cada vez mais ténues. A inteligência artificial está a transformar a economia, o trabalho, a ciência e a própria forma como as sociedades se organizam.
Neste novo mundo, ser independente não significa estar isolado. Significa ter capacidade para escolher e proteger os nossos interesses.
É essa a nova dimensão da soberania nacional.
Portugal precisa de participar plenamente na globalização, mas não pode limitar-se a ser consumidor da tecnologia criada por outros.
Precisamos de conhecimento próprio.
De ciência.
De empresas competitivas.
De capacidade tecnológica.
De energia e infraestruturas seguras.
De dados protegidos.
De uma inteligência artificial colocada ao serviço das pessoas.
A soberania do século XXI também se constrói nos laboratórios, nas universidades, nas empresas e nos centros de inovação.
Constrói-se na capacidade de produzir conhecimento e de transformar conhecimento em riqueza.
Constrói-se na capacidade de garantir que as novas tecnologias não aumentam desigualdades, mas criam oportunidades.
E constrói-se, sobretudo, nas pessoas.
Por isso, a independência nacional de hoje passa também por termos portugueses preparados para compreender, criar e utilizar as tecnologias que estão a transformar o mundo.
É aqui que a Batalha tem um papel a desempenhar. Porque a soberania nacional não se constrói apenas em Lisboa. Constrói-se em cada município, em cada comunidade, em cada empresa, em cada escola e em cada família.
Um Portugal verdadeiramente independente é um Portugal territorialmente coeso, onde os jovens possam estudar, trabalhar, empreender e constituir família em qualquer parte do país.
Não podemos aceitar que a concentração de oportunidades obrigue as novas gerações a abandonar os territórios onde nasceram.
A Batalha tem História, património, identidade, capacidade empresarial e pessoas. Tem tudo para continuar a afirmar-se como território de excelência.
E há uma ligação profunda entre Aljubarrota e o nosso tempo.
Há mais de seis séculos, Portugal afirmou aqui o direito de decidir o seu próprio destino.
Hoje, temos de afirmar esse mesmo direito num mundo novo.
Não contra os outros, mas com os outros. Não fechados ao mundo, mas preparados para o mundo.
Não recusando a globalização, mas garantindo que Portugal tem capacidade para nela participar com conhecimento, competência e confiança.
A independência do futuro não será a independência de quem se fecha. Será a independência de quem tem capacidade para escolher.
É essa capacidade que temos de construir.
Com mais ciência.
Com mais inovação.
Com mais educação.
Com mais empresas.
Com mais talento.
Com mais segurança.
Com mais confiança.
E com uma visão clara: queremos um Portugal bom para viver, bom para trabalhar e capaz de construir o seu próprio futuro.
Neste Dia Municipal da Batalha, perante este lugar extraordinário da nossa História, deixo uma palavra de confiança.
A batalha do nosso tempo é pela liberdade de decidir o futuro.
E essa batalha – tal como em Aljubarrota – será vencida se soubermos estar unidos, acreditar em Portugal e agir com coragem.