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Intervenção na sessão solene comemorativa dos 150 anos da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários Egitanienses

Há profissões que se exercem. Há missões que se vivem. Ser Bombeiro é uma dessas missões. A minha presença aqui é um sinal de agradecimento e de reconhecimento pelo vosso espírito de missão e pela afirmação do bem comum de um modo muito concreto e determinante na vida das pessoas.

Neste elogio estou acompanhado de todos os portugueses. Mas há um outro motivo, mais particular, para eu estar aqui hoje. E os que me receberam a 13 de dezembro do ano passado, quando visitei o vosso quartel, estarão lembrados.

Até porque, além de bons bombeiros, revelaram-se também bons analistas políticos. Nessa altura, convidaram-me para esta sessão solene. E anteciparam que eu já viria como Presidente da República. Aceitei o convite. E aqui estou a cumprir a promessa, e com todo o prazer. Cumprir as promessas eleitorais é uma das dimensões éticas que devemos ter para reforçar a credibilidade das nossas instituições democráticas e para que as pessoas acreditem na política.

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

Há exatamente um ano, Portugal confrontava-se com uma vaga de incêndios de grande dimensão. Na altura, disse que “não pode haver lágrimas no verão e indiferença no resto do ano. Que temos de nos unir para vencer a tragédia dos incêndios. E que o país tem de se focar na prevenção”.

Repetidamente, em documentos e em contactos oficiais, tenho transmitido a necessidade de melhorarmos a prevenção e a capacidade de resposta. O relatório da Comissão Técnica Independente, que avaliou os incêndios de agosto do ano passado e foi revelado há poucos dias, vai no mesmo sentido.

E aponta algo ainda mais preocupante: muito ficou por fazer depois dos relatórios anteriores, dos incêndios de 2017. E essas falhas reduziram a nossa capacidade de resposta aos grandes incêndios do ano passado.

É urgente evitar que as medidas propostas fiquem na gaveta, adiadas sine die. As intempéries, as vagas de calor, os sismos, a frequência de incêndios devastadores, em Portugal e noutras geografias, clamam por uma ação atempada, mobilizadora e cientificamente fundamentada. E clamam por uma observação atenta da Presidência da República sobre a proteção e a segurança das comunidades, à qual tenho dedicado uma parte significativa do meu trabalho.

Clamam também pelo cumprimento de promessas que se arrastam há demasiado tempo. Como a que se seguiu à tragédia de 2022, no Parque Natural da Serra da Estrela, devastado por um incêndio que durou mais de duas semanas.

Quatro anos depois, essa promessa continua por cumprir. Quase nada foi investido dos 155 milhões de euros anunciados. Ora, quando se assinala meio século do Parque Natural da Serra da Estrela, em vez do passa-culpas, o que se exige são passos concretos para revitalizar e proteger este património natural, que é também um dos principais ativos desta região do interior de Portugal. A Serra da Estrela merece mais do que promessas.

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

As particularidades do interior, com aldeias dispersas, algumas quase despovoadas, com poucos serviços sociais e de saúde, com famílias envelhecidas e com dificuldades de mobilidade, acentuam outras vertentes da ação dos bombeiros que nem sempre recebem o devido reconhecimento.

Cito apenas alguns exemplos: o papel decisivo no transporte de doentes, na emergência pré-hospitalar e nos acidentes rodoviários. Basta olhar para os números que divulgam no vosso sítio na internet para perceber o que a vossa atividade representa para as populações.

O protocolo assinado há cerca de uma semana com a quase totalidade das juntas de freguesia da vossa área de atuação é mais um sinal desse envolvimento e dessa proximidade.

Uma dessas juntas de freguesia é a de Vila Franca do Deão. E, como esta é a primeira vez que venho à Guarda enquanto Presidente da República, quero aproveitar a ocasião para homenagear Carlos Dâmaso, ex-autarca de Vila Franca do Deão, que faleceu há precisamente um ano, quando defendia a sua aldeia de um incêndio. É um exemplo de que há pessoas capazes de arriscar a própria vida pela vida dos outros. Como, todos os dias, fazem os bombeiros de Portugal.

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Egitanienses é uma das mais antigas do país. Há muitas outras com grande longevidade. Centenas delas ultrapassam já os cem anos.

Nascidas da vontade do povo, a sua longa existência prova algo que devia interpelar-nos: que se mantêm válidas as razões que estiveram na sua origem. A necessidade de resolver problemas perante a ausência de resposta do Estado.

Chamam-se humanitárias porque nasceram da iniciativa solidárias das pessoas, muito antes de existir um sistema moderno de proteção civil. São instituições construídas por pessoas para servir pessoas. A sua rezão de existir não é o lucro, nem o interesse próprio; é a proteção da vida humana, o socorro a quem precisa. O termo humanitário não é apenas uma designação jurídica. É uma identidade. Significa colocar a pessoa humana no centro de toda a ação. Significa acudir sem perguntar quem é, de onde vem ou em que acredita. Significa servir, ajudar, socorrer.

Num tempo em que tantas vezes se fala de divisão, os bombeiros recordam-nos o fundamental: o dever de cuidarmos uns dos outros.

Senhoras e Senhores,

Cento e cinquenta anos é mais do que uma efeméride. É a medida de quantas gerações desta cidade decidiram que valia a pena levantar-se a meio da noite por um vizinho ou por um desconhecido. É uma corrente de solidariedade que atravessou gerações e gerações sem se quebrar.

Por isso, a minha presença aqui é uma homenagem a vós, que quero alargar a todas as associações de bombeiros de Portugal. Aos que estão. Aos que estiveram. E aos que, algures neste país, estão neste momento a sair de casa porque alguém precisa de socorro.

Não há discurso que pague o que fazem. Mas há uma coisa que Portugal vos deve sempre: memória, respeito e gratidão. Parabéns pelos cento e cinquenta anos.

E, como as palavras têm de ter consequências, em reconhecimento do papel insubstituível dos bombeiros portugueses ao serviço das populações e do país, decidi distinguir hoje a Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários Egitanienses com o grau de Membro-Honorário da Ordem do Mérito, por ocasião das comemorações dos seus 150 anos.

Muitos parabéns e muito obrigado!

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