Há lugares que vivem para sempre. São mais resistentes que as paredes e a inevitável erosão do tempo. Porque são lugares que ganham um estatuto único, de intemporalidade. São nossos. São de cada um de nós, são de todos nós.
Porque cada um tem uma relação muito própria, única, com cada momento da sua passagem por esse lugar. As janelas, o mobiliário, os sons, a luz e, claro, alunos e professores e os funcionários.
Cada um a designa por “a minha escola”, porque a sente como sua e, de certa forma, há uma simbiose quase total.
Cada um de nós resulta da sua vivência na escola. Vivência e aprendizagem. Todos juntos, formamos uma comunidade que se multiplica por alunos, pais, professores, trabalhadores, e a escola é esse elo comum. A escola somos nós, gerações que se sucedem na “minha escola”.
Um processo similar ao da fotossíntese, que se renova todos os dias e que nos fortalece. É por isso que esta não é uma escola. É a POLI, a forma carinhosa como várias gerações partilham uma relação de saber, aprendizagem, formação enquanto pessoa e, em particular, de afetos. E é particularmente simbólico que esta nova página da história da POLI se abra hoje, 21 de setembro, Dia Internacional da Paz das Nações Unidas.
Este ano, o apelo é “Investir na Paz”. Também se investe na paz dentro de uma escola: quando se ensina a ouvir, a dialogar, a respeitar a diferença e a procurar na palavra um caminho para aquilo que nos separa. É aqui, com professores e alunos, que começa muitas vezes a construção de uma cultura de paz que levamos depois connosco para a sociedade.
Desde 1975, gerações de alunos cresceram na POLI, fizeram amigos, descobriram vocações e começaram a desenhar o seu futuro. Um pouco no que, com ironia, chamamos “à portuguesa”, a escola nasceu como uma solução provisória e acabou por acompanhar mais de meio século da história de Cascais.
Hoje, essa história abre uma nova página.
A “POLI” mantém a sua identidade, as suas memórias e a sua comunidade, mas encontra finalmente uma casa preparada para receber as gerações que se seguem.
Quero, por isso, começar por reconhecer todos aqueles que tornaram este momento possível: o Município de Cascais, a comunidade educativa, o Governo e as diferentes entidades públicas que, ao longo dos anos, mantiveram este compromisso.
Quero destacar também o papel do Plano de Recuperação e Resiliência, que permitiu acelerar a requalificação de muitos estabelecimentos de ensino e concretizar intervenções que eram há muito necessárias em diferentes regiões do País.
Esta escola é uma obra de Cascais, mas é também parte de um esforço nacional e, devemos acrescentar, da União Europeia, que tem como objetivo primeiro dar às nossas crianças e aos nossos jovens condições dignas de aprendizagem.
Como já referi, uma escola não é somente o edifício onde se aprende. É, igualmente, o lugar onde uma sociedade decide, todos os dias, que futuro quer oferecer à geração seguinte. Uma tarefa à qual os pais não se podem excluir e delegar em exclusivo nas escolas. E é aqui que começa a nossa responsabilidade. A nossa do Governo, a nossa do Presidente da República, a nossa da Assembleia da República.
O sistema educativo está a atravessar uma transformação que nos obriga a repensar a própria escola. E essa mudança só pode ser feita com quem todos os dias a constrói.
Os professores, os alunos, as famílias e todos os profissionais que lhes dão apoio.
Os professores são a força motriz dessa transformação. Conhecem as salas de aula, acompanham os alunos, reconhecem dificuldades e descobrem talentos.
E os alunos não podem ser apenas destinatários das mudanças, devem ser chamados a participar na construção da escola, da sua escola, da nossa escola.
Conforme tenho vindo a alertar em várias intervenções, os resultados do PISA mostram que Portugal tem muito caminho a percorrer. Infelizmente, a expressão correta é muito caminho a recuperar. Com essa recuperação temos todos de avançar melhor.
É por isso que é obrigatório olhar para esses resultados com serenidade, mas também com ambição. Estar entre os melhores, sem perda de talentos, e isso significa igualmente que temos de garantir que as circunstâncias económicas e sociais de uma criança e de um jovem não podem determinar o seu futuro.
É essa uma das promessas maiores da escola: transformar pontos de partida diferentes em oportunidades verdadeiramente iguais. Chamamos de elevador social, e, temos de o reconhecer, os dados revelam que o elevador está muito aquém da velocidade desejável para a promoção da mobilidade social.
A escola é um lugar de aprendizagem e, na verdade, todos nós temos muito a aprender, a descobrir e a refletir, sobre a evolução tecnológica, a sua influência no nosso dia a dia e as questões que colocam, por exemplo, sobre atenção, saúde mental, criatividade e liberdade.
A comunidade escolar não se deve desvincular desse debate e da aprendizagem que todos temos pela frente. E não é apenas na escola. É necessário incentivar um espírito crítico, duvidar, colocar em causa axiomas que nos são oferecidos nos vários ecrãs e evitar o impulso de cair numa leitura polarizada. No fundo, apostar em literacia e capacidade de análise crítica.
Daí a importância do livro, da leitura, da envolvência através da palavra. Dita, escrita ou desenhada. Os contadores de histórias que nos envolvem no que temos de mais genuíno e livre: a imaginação. A arte de contar e de ouvir. A arte de escrever e de ler. Leiam, leiam, leiam. Foi o apelo que lancei na Festa do Livro em Belém e que hoje aqui renovo.
Ler é compreender. É descobrir aquilo que ainda não conhecemos. É conhecer outras vidas, outros tempos e outros mundos.
É aprender a distinguir um facto de uma opinião, uma ideia de um preconceito, uma informação verdadeira de uma informação falsa. É desenvolver pensamento crítico. É ganhar liberdade.
Num tempo em que recebemos todos os dias uma enorme quantidade de mensagens, imagens, opiniões e informações, talvez nunca tenha sido tão importante saber ler bem. Ler, interpretar, questionar, confirmar e pensar.
Por isso, uma sociedade que quer avançar tem de ser uma sociedade que lê. E uma escola que quer preparar os seus alunos para um mundo em mudança tem de formar leitores.
Queridos alunos e alunas,
O primeiro dia de um novo ano escolar é sempre um dia de começo. Para muitos de vós, é o regresso à escola. Para outros, é o primeiro dia numa nova escola, com novos professores, novos colegas e novos desafios. Mas, para todos, é também um dia em que começa a construir-se o amanhã.
Porque cada ano escolar coloca uma pergunta muito simples: que país queremos ser? A resposta começa, em grande medida, na escola. É na escola que uma criança ou um jovem descobre que pode saber mais do que aquilo que já sabe.
É na escola que aprende a fazer perguntas, a procurar respostas, a ouvir os outros e a pensar pela sua própria cabeça.
E é na escola que começa a descobrir que o seu caminho não tem de ser determinado pelo lugar onde nasceu, pela profissão dos seus pais ou pelas dificuldades que encontrou.
Por isso, a Educação é muito mais do que uma política pública. É uma promessa de liberdade.
Liberdade para conhecer.
Liberdade para pensar.
Liberdade para escolher.
Liberdade para construir uma vida própria.
E é também uma das formas mais poderosas de construir uma sociedade mais justa.
Uma sociedade verdadeiramente justa é aquela em que uma criança com menos oportunidades pode sonhar tão alto como qualquer outra e encontra na escola os instrumentos para transformar esse sonho em realidade.
É também por isso que devemos olhar para a Educação com ambição.
Aos professores quero deixar uma palavra muito especial de reconhecimento.
Ensinar é uma das formas mais exigentes e mais nobres de servir o bem comum, e quem ensina merece o respeito, a confiança e o reconhecimento de toda a sociedade.
Valorizar os professores é valorizar a própria Educação, porque nenhum sistema educativo será verdadeiramente forte se aqueles que todos os dias ensinam não sentirem que a sua profissão é respeitada, a sua missão é reconhecida e o seu esforço é valorizado.
Um professor não transmite apenas conhecimentos. Um professor pode despertar uma vocação. Pode abrir uma porta. Pode ser aquela pessoa que, num determinado momento, diz a um aluno: “eu acredito em ti.” E, às vezes, uma frase muda tudo.
Queridos alunos e alunas,
Portugal acredita em vós. Acredita naquilo que podem aprender, descobrir e criar. Cada criança que aprende a ler abre uma porta. Cada jovem que descobre uma paixão encontra um caminho. Cada professor que ensina deixa uma marca. E cada escola pode ser o lugar onde começa uma vida inteira de possibilidades e de oportunidades. Que este seja, por isso, um ano de descoberta.
Um ano de conhecimento.
Um ano de livros.
Um ano de perguntas.
Um ano de sonhos.
E que cada um de vós termine este ano sabendo mais, compreendendo melhor e acreditando mais em si próprio.
Porque educar é, no fundo, isto: dar a cada pessoa mais possibilidades de ser livre.
E dar a Portugal mais possibilidades de construir o seu futuro.
Bom ano escolar.
Boas leituras e bons sonhos.