Começo por uma palavra de reconhecimento e de gratidão.
Estamos hoje neste lugar tão especial porque várias pessoas e várias entidades — que já foram referidas nas intervenções anteriores, e que hoje fazemos questão de lembrar e homenagear — acreditaram no papel da arquitetura e acreditaram também que era importante registar, arquivar e proteger esse património de pensamento e imaginação.
Estamos gratos a todos eles. Sem exceção. Ao engenheiro Belmiro de Azevedo, à Câmara Municipal de Matosinhos, aos empresários que contribuíram e vão contribuir para este projeto, aos departamentos do Estado Central, aos funcionários dedicados desta casa, e naturalmente, aos arquitetos que aqui estão representados — a todos devemos essa palavra de reconhecimento e de gratidão.
Depois de atravessar os corredores dos arquivos da Casa da Arquitetura, onde podemos ver acima de mil maquetes, o que é um notável património, mas também esquissos, desenhos, planos originais ou digitalizados, e depois de ficarmos também comovidos com a exposição sobre o brasileiro Lúcio Costa, a nossa vida muda um pouco, talvez porque essa pequena travessia nos ajuda a perceber o papel e a importância da arquitetura.
Os arquitetos não ficarão tão comovidos, evidentemente, porque estão habituados a lidar com esse universo de traços, medidas, linhas, curvas e contrastes, volumetria e proporção.
Mas a nós, simples mortais, interessam-nos a beleza das formas e dos resultados, mas também a resposta à mais simples das perguntas: onde vamos habitar?
Depois dessa pergunta há muitas outras, porque a habitação é o centro da nossa vida.
A arquitetura fala do lugar onde vivemos, onde trabalhamos, onde repousamos, onde amamos e onde esperamos que a nossa vida tenha sentido.
É, por isso, uma técnica, uma arte e um trabalho que está no centro da nossa existência, especialmente neste tempo em que é impossível não falarmos do “problema da habitação”. Ou seja: da falta de habitação condigna, da necessidade de habitação acessível — mas também da necessidade preservar e melhorar as nossas cidades, tornando-as mais habitáveis e permeáveis à beleza da arquitetura.
As duas primeiras necessidades relevam do reconhecimento de um direito básico e elementar ao qual temos, como país, de dar resposta urgente. Não falo apenas da habitação, mas da casa.
A casa é um fator de coesão social, num tempo em que as nossas formas de organização e mobilidade mudaram.
De coesão familiar, num tempo em que também as famílias mudaram as suas formas de coexistência e afetividade.
De coesão do país, que está em mutação, como sempre estão os países ao enfrentarem os desafios do seu tempo.
Essas são necessidades a que temos de responder sob pena de, quando falarmos das realizações do regime democrático, ou das promessas de Abril, ou da normalidade da nossa vida como país, entrarmos em contradição com o seu espírito e com os nossos sonhos e compromissos.
Não admira, por isso, que sábios e filósofos como George Steiner tenham mencionado a arquitetura como uma das disciplinas essenciais para compreender o mundo — ao lado da música, da literatura, das línguas e da matemática.
A arquitetura seria um dos vértices desse polígono de saberes decisivos. Ensina-nos a ocupar o espaço com harmonia e sentido prático. Reúne um conjunto de saberes que têm a ver com a nossa vida quotidiana e com as nossas necessidades como seres humanos. E, finalmente, explica-nos, porque é que há duas palavras tão sensíveis como “habitação” e “casa”.
Um dos mais belos livros da nossa poesia intitula-se “O Problema da Habitação”, publicado por Ruy Belo em 1962. Nele, o poeta ocupa-se da habitação sobre a terra e do nosso lugar na terra.
Dez anos depois escreve um poema singular, intitulado “As Casas, as casas, as casas", incluído no livro “O País Possível”.
Vivemos hoje, ainda e sempre, nessa encruzilhada. Entre a necessidade das casas e a necessidade de casas que sejam belas e sejam, como escrevia Ruy Belo, “testemunhas da vida”. Entre o direito à habitação e o direito a uma vida digna sobre a terra.
Permitam-me também, aproveitando a circunstância de estarmos no início de um novo mandato diretivo nesta Casa da Arquitetura, ao qual desejo o maior sucesso, que mencione um tema que tem sido caro nas minhas intervenções, e do qual não pretendo abdicar. Trata-se da responsabilidade social da riqueza.
Ao fazê-lo, lembro a necessidade de devolver à comunidade um bem que não pode estar encerrado e que deve destinar-se à fruição de todos.
Para isso são necessários fundos e meios que não podem ser apenas disponibilizados pelo Estado.
É fundamental que a ideia do mecenato não seja apenas a de um instrumento legal, mas também uma finalidade. É fundamental que a cooperação de entidades privadas num projeto desta natureza seja vista como um dever, uma obrigação moral, um imperativo da vida em sociedade.
Esse apoio dos privados tornou possível, no passado, que as artes se desenvolvessem e que os autores e criadores tivessem a oportunidade de, com independência e liberdade, obter reconhecimento, meios de subsistência — e tempo, um bem precioso para os artistas e para todos nós.
Foi possível, com esse apoio, que se criassem museus, bibliotecas, escolas e fundações. Esses apoios traduziram-se na devolução, à comunidade, de um bem que se tornou público e que tornou mais notável e digno de exemplo o nome dos seus empreendedores.
Acredito que este novo ciclo diretivo da Casa da Arquitetura, em Matosinhos, pode espelhar essa prática que não deixaremos de elogiar quando se abordar este tema.
Hoje, esta casa não só dispõe da totalidade do acervo de um português distinguido com o prémio Pritzker, mas também o de muitos outros que fazem dela um Centro capaz de cuidar e promover o património e a história da arquitetura portuguesa.
É um projeto que exige novos mecenas que se juntarão, certamente, para cumprir este ciclo que hoje iniciamos.
Por fim, meu caro Eduardo Souto Moura, como recentemente disse noutra circunstância, em Barcelona, onde tive o prazer de assistir à entrega de um novo prémio à sua obra, aprendi com ela a observar uma dimensão humana na arquitetura.
Compreendi, com a sua obra, algumas interrogações fundamentais sobre espaço, cidadania e economia, sobre ambiente e mobilidade humana, mas também acerca da justiça e da igualdade, do repouso, da beleza — e do som do lápis sobre a folha de desenho.
Talvez por isso Eduardo Souto Moura mencione a arquitetura como uma arte depois de ter cumprido outras funções, em diálogo com os materiais, o espaço e as necessidades humanas.
Disse, na altura, que Eduardo Souto Moura me parecia um homem que abre janelas no meio das muralhas. Ao procurarmos a identidade da sua obra, muitas vezes acabamos a descobrir a nossa identidade.
É por isso, com renovado orgulho, que a minha derradeira palavra de gratidão vai para este arquiteto que está entre nós e cuja generosidade nos permitirá visitar os seus desenhos, as suas inquietações e as suas realizações neste espaço dedicado à arquitetura, à sua memória e à sua beleza.
Muito obrigado!