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Intervenção na cerimónia de entrega do Prémio D. Diniz 2026 a Djaimilia Pereira de Almeida

Do Presidente da República não se espera que comente um livro – até porque já o fizeram os membros do júri, Prof. Fernando Pinto do Amaral e Dr. Pedro Mexia –, mas deve exigir-se que o festeje. E que, naturalmente, elogie a sua autora, Djaimilia Pereira de Almeida.

Sigo Djaimilia Pereira de Almeida desde “Esse Cabelo”, um livro que, à sua maneira, mudou a forma como escrevemos a nossa língua e nos referimos às linhas de fronteira da identidade. Na verdade, esse misto de romance, autobiografia, livro de memórias, saga familiar e, já agora, maravilhoso livro sobre o cabelo (que simboliza a identidade), mostrou que nos faltavam, à nossa língua e ao nosso dicionário de mitologias, esse olhar e essa sensibilidade.

Há coisas que só nos faltam quando alguém fala delas. Com certeza que não foi Djaimilia a primeira a eleger esse tema e essa genealogia – mas foi ela a primeira a fazê-lo da forma que escolheu, mesclando a história e a amargura, a memória e a impossibilidade de voltar atrás. A partir desse momento damo-nos conta de que nos tinham faltado a sua presença real, a sua escrita, a sua revelação como autora.

Como a própria escreve nesse livro a que me permito voltar sempre, porque é uma boa recordação na minha vida de leitor, “talvez o livro do cabelo esteja já escrito, problema resolvido, mas não o livro do meu cabelo”. Ou seja, há onze anos, em 2015, Djaimilia Pereira de Almeida reivindicava já o seu caminho, o seu direito a contar a sua história, a invenção de uma gramática pessoal. O seu lugar, conquistado ano a ano. Não, degrau a degrau, mas passo a passo. Ou nem passo a passo – mas palavra a palavra, alegoria a alegoria, pergunta a pergunta.

Catorze livros depois, não sabemos se cada um deles evoca, enquanto foi escrito, a herança do avô Castro – a “coleção de canetas Parker de imitação que guardou dentro de uma mala durante uma década”, “amarradas com uma guita e oxidadas”. Mas cabe-nos esta alegria de vê-la receber o Prémio D. Diniz da Casa de Mateus.

Na biografia de Djaimilia Pereira de Almeida cabem, até agora, outros prémios. Todos eles (do Oceanos ao Vergílio Ferreira, do Grande Prémio APE ao Fernando Namora) assinalam e confirmam o seu talento, a originalidade da sua obra – e a sua voz. Mas acredito que o Prémio D. Diniz, pela sua grandiosa lista de premiados, pela sua genealogia e pelo seu espírito, seja uma consagração especial.

Em primeiro lugar porque, ao invés de distinguir um género, um estilo, uma escola, um espírito, o Prémio D. Diniz, na sábia e feliz opção dos seus fundadores – e também pela composição dos seus júris –, percorreu até agora todos os géneros e todas as formas de escrita, da poesia à tradução e ao diário, do romance ao ensaio e à historiografia.

Isso parece desenhado para Djaimilia Pereira de Almeida, cujos livros mesclam e pedem empréstimos a géneros e formas diferentes, mas também a heranças, identidades e culturas que com eles falam pela sua voz – isso acontecerá, também, com este seu livro.

Esta dificuldade de catalogação é própria da literatura como a lemos hoje: uma viagem e uma contaminação permanentes, um esbatimento de fronteiras entre géneros e geografias.

Depois, evidentemente, porque se trata de Mateus.

Ou seja, trata-se de um lugar especial na nossa geografia e na nossa memória. Uma família, e todos os seus amigos e colaboradores, até hoje, fizeram deste lugar uma espécie de comunhão inspiradora entre todas as artes e saberes: a agricultura, a música, a pintura, a leitura (cuja alma pode habitar na sua preciosíssima biblioteca e nos documentos que guarda), a arquitetura, a busca do diálogo e do debate, os encontros de poetas e tradutores, a abertura ao mundo exterior – e também a paisagem propriamente dita, os jardins, as caminhadas e o silêncio, que me parecem formas muito importantes de participar nessa busca do saber e do conhecimento.

A história da Casa de Mateus perfaz vários séculos, tendo atravessado momentos muito especiais e preservado bens que hoje olhamos com comoção. Cabe aqui uma saudação muito especial, na pessoa da Dra. Teresa Albuquerque, à Fundação da Casa de Mateus e ao papel que ela simboliza e ocupa na cultura portuguesa.

Um dia, entre esses momentos, certamente recordaremos a entrada – na sua biblioteca – do romance “Livro da Doença”, que hoje festejamos, e do nome da autora. Em 2015 ela escrevia, no livro “Esse Cabelo”, esta frase divertida e comovente:

“Segundo se diz, desembarquei em Portugal particularmente despenteada aos três anos, agarrada a um pacote de bolacha Maria.”

Pode ser mais do que literatura e constituir uma verdadeira recordação pessoal e familiar. Mas é uma bela imagem. Anos depois, é bom vê-la na Casa de Mateus, recebendo um justo prémio de que não nos esqueceremos.

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

A minha deslocação a Trás-os-Montes é uma oportunidade para reafirmar uma convicção essencial: Portugal não se compreende, não se realiza e não constrói o seu futuro sem valorizar plenamente o seu interior.

Hoje, cruzam-se aqui três expressões da cultura que nos enriquecem e nos ligam ao mundo: a obra de Nadir Afonso, a obra de Siza Vieira – dois nomes maiores da criação artística e da arquitetura portuguesas – e a entrega do Prémio Literário D. Diniz, da Casa de Mateus, à escritora Djaimilia.

São momentos diferentes, unidos por uma mesma ideia: a cultura é uma forma de afirmar a nossa identidade, de abrir horizontes e de aproximar Portugal do mundo. E é particularmente significativo que tudo isto aconteça em Trás-os-Montes, demonstrando que o talento, a criatividade e a excelência não têm morada exclusiva nos grandes centros urbanos.

O interior de Portugal não pode ser visto apenas a partir das suas dificuldades, do envelhecimento da população, da perda de habitantes ou da distância aos principais centros de decisão.

Tem de ser reconhecido também pela sua capacidade de iniciativa, pelo seu património, pelas suas instituições, pela qualidade das suas gentes e pela riqueza cultural que oferece ao país.

Valorizar o interior não é apenas preservar o que recebemos do passado. É criar condições para que quem aqui nasce possa aqui viver, estudar, trabalhar, empreender e realizar os seus projetos de vida. É garantir serviços públicos de qualidade, boas acessibilidades, oportunidades para os jovens e condições para atrair investimento, conhecimento e inovação.

É também reconhecer que o desenvolvimento de Portugal não pode depender de uma geografia de oportunidades concentradas. Um país mais coeso é um país em que o código postal não determina as possibilidades de cada cidadão e em que a distância aos grandes centros não significa distância aos direitos, às oportunidades ou à participação na vida nacional.

A cultura tem, neste caminho, um papel decisivo. Dá visibilidade aos territórios, mobiliza comunidades, atrai visitantes, estimula a economia e transmite às novas gerações o sentido de pertença.

Mas tem também um valor que não se mede apenas em resultados económicos: ajuda-nos a compreender quem somos e a imaginar aquilo que podemos ser.

Por isso, estar hoje em Trás-os-Montes é reconhecer que o interior não é uma margem de Portugal. É parte integrante do seu centro histórico, cultural, económico e humano. Um país que desvaloriza o interior empobrece-se a si próprio; um país que investe nele amplia as suas possibilidades e fortalece a sua coesão.

Portugal precisa de transformar esta convicção numa prioridade permanente: mobilizar o Estado, as autarquias, as universidades, as empresas, as instituições culturais e a sociedade civil para que cada território possa desenvolver as suas potencialidades.

É essa a ambição que devemos partilhar: um Portugal que reconheça o valor de todas as suas regiões e que ofereça aos seus cidadãos, onde quer que vivam, razões para acreditar no futuro.

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