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Intervenção na cerimónia de receção à fragata NRP D. Francisco de Almeida

Regressais com a missão cumprida e com o reconhecimento dos nossos aliados. Em duas largadas, levaram a bandeira de Portugal do Atlântico Norte ao Mar Báltico, numa das forças navais de mais elevada prontidão da NATO. Foram presença, vigilância e dissuasão onde a Aliança mais precisava. E fizeram tudo isto longe de casa.

Foram meses a contar os dias, tantas vezes sem a troca de palavras, dos dois lados do mar: a bordo, entre quartos e tarefas; em terra, entre a casa e a espera. Hoje, essa contagem chega ao fim. Esta manhã, o NRP D. Francisco de Almeida voltou ao Tejo e, lá fora, no cais, esperam-vos aqueles que, convosco, mais contaram os dias.

Sei que o dia já vai longo. Os compromissos a que o Presidente da República está obrigado não me permitiram estar aqui mais cedo. Mas fiz questão de vir. Fiz questão de, antes que este dia terminasse, subir a bordo e assinalar, em nome de Portugal, o vosso regresso. Porque há momentos que não se delegam. Receber quem serviu Portugal longe de casa é um deles.

Em Angra do Heroísmo, no Dia de Portugal, disse que o mar nos ensinou a partir, mas também a regressar. Nesse mesmo dia, a poucos quilómetros, este navio estava atracado na Praia da Vitória, aberto aos portugueses, no fim da primeira fase da missão.

Este navio tem o nome de D. Francisco de Almeida, que em 1505 partiu de Lisboa para uma missão longe de casa, num tempo em que o regresso era uma incerteza. Não voltou a ver o Tejo. Felizmente todos vós regressastes. São 172 mulheres e homens que hoje o mar devolve a Portugal.

Bem-vindos, a casa.

Comandante, Oficiais, Sargentos e Praças do NRP D. Francisco de Almeida,

Quando partiram desta base, em abril, o Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada lembrou-vos que não iam apenas cumprir obrigações internacionais, mas reafirmar o compromisso de Portugal com a defesa coletiva. E disse-vos que seriam, durante estes meses, embaixadores da nossa bandeira. Honrastes essas palavras.

Integraram, por duas vezes este ano, o Agrupamento Naval Permanente n.º 1 da NATO – o SNMG1 –, a força que garante à Aliança uma capacidade de resposta imediata no mar, em tempo de paz e em tempo de crise.

Ao serviço dessa missão, vós estivestes permanentemente empenhados na Operação Brilliant Shield, para assegurar a dissuasão, a liberdade de movimento e a resiliência dos Aliados no Atlântico Norte e no Mar Báltico. Garantiram presença naval e conhecimento situacional marítimo. Protegeram as linhas de comunicação e o tráfego marítimo. Acompanharam navios mercantes sujeitos a sanções e meios navais e aéreos que testam a determinação da Aliança.

E treinaram, com os nossos aliados, para os cenários mais exigentes: da luta antissubmarina, no Mar da Noruega, ao tiro naval real, na Escócia. Do Báltico ao Atlântico Norte, operaram lado a lado com 34 navios e aeronaves de oito países aliados e da nossa Força Aérea. O vosso helicóptero voou. Os vossos Fuzileiros abordaram. A vossa guarnição respondeu. Sempre que vos foi pedido.

Mas os relatórios só contam uma parte da história. Não contam as noites de quarto, com o casco a rasgar o mar. Não contam o frio do Norte, a fadiga acumulada, a atenção que não pode falhar. Não contam os aniversários passados longe, as chamadas curtas, as mensagens que chegam tarde. Tudo isso foi executado sem que pedísseis reconhecimento. Porque a essência da condição militar nunca foi a vaidade. Sempre foi o serviço.

Por isso vos digo, como Comandante Supremo das Forças Armadas: Portugal tem orgulho em vós. Orgulho na vossa competência, na vossa disciplina e na forma como representastes Portugal entre os nossos aliados.

Esse orgulho estende-se a quem tornou a vossa missão possível. Porque um navio nunca navega sozinho. Houve quem preparasse o navio e treinasse a guarnição. Quem planeasse, abastecesse e acompanhasse a missão de terra, dia e noite, no Comando Naval, no Comando Conjunto para as Operações Militares e nos estados-maiores. A todos dirijo o meu reconhecimento.

E há uma segunda guarnição: a que não embarcou. Está ali, no cais, à vossa espera. E é também a ela que dirijo estas palavras. Foram as vossas famílias que ficaram com a casa, com os filhos, com as preocupações. Foram elas que explicaram aos vossos filhos porque é que o pai ou a mãe não estavam ao jantar. Foram elas que esperaram as notícias e guardaram as saudades. Também elas serviram Portugal.

Às vossas famílias digo daqui, em nome de Portugal: obrigado.

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

Esta não foi uma missão de rotina. Vivemos um tempo em que a guerra regressou à Europa, em que a paz é mais frágil do que ontem e em que regras que julgávamos firmes são postas em causa.

Os perigos são novos: a ameaça que vem do fundo do mar, a sabotagem que não se anuncia, a guerra que se trava na informação. E é pelo mar que passam as comunicações, a energia e o comércio de que dependem os portugueses. Protegê-los foi também a vossa missão.

Neste tempo, a segurança da Europa e a segurança do Atlântico são uma só. Como afirmei em Angra do Heroísmo, a Europa e a América do Norte são dimensões de uma mesma comunidade de segurança, que tem na NATO o seu pilar fundamental, e a autonomia estratégica europeia é complemento, e não alternativa, da defesa transatlântica. Os Açores, onde em junho este navio e o agrupamento aliado fizeram escala, lembram-nos que o Atlântico português não é periferia: é o elo entre a Europa e a América do Norte.

Esta missão foi aprovada com parecer favorável do Conselho Superior de Defesa Nacional antes ainda da minha tomada de posse, e cumprida já no meu mandato. É a prova de que a defesa nacional é política de Estado e não muda com os ciclos eleitorais. Portugal honra os seus compromissos de membro fundador da Aliança Atlântica, sobretudo quando a unidade da Aliança é posta à prova. E honra-os ao serviço da paz. Dissuadir é proteger. Estar presente é prevenir.

Comandante, Oficiais, Sargentos e Praças,

Não vos retenho mais. Quem vos espera já contou demasiados dias.

Dentro de momentos, irão descer ao cais e a cerimónia dará lugar àquilo que verdadeiramente importa: o reencontro. E as palavras que ficaram por dizer durante estes meses poderão, finalmente, ser ditas. Quando abraçarem as vossas famílias, levem-lhes o agradecimento do Comandante Supremo. E levem convosco a certeza de que Portugal sabe o que fizeram, reconhece o que representam e confia em vós.

Partistes como embaixadores da nossa bandeira. Regressais tendo-a honrado.
O mar ensinou-nos a partir. Hoje, ensina-nos de novo a alegria de regressar.

Bem-vindos, a casa.
Viva a Marinha!
Viva as Forças Armadas!
Viva Portugal!