Eu tinha aqui escrito que é com particular emoção que regresso a Leiria, mas antes disso eu quero dizer: fantástico aquilo que eu vi nestes minutos em que tenho estado nesta escola.
A escola não é apenas um conjunto de salas onde um professor tem atrás de si um quadro ou um projetor e tem na sua frente alunos que devem estar com atenção durante um período que está definido, seja de 60, de 90 minutos, para ouvir o que o professor tem de dizer. A escola é um lugar de encontro, onde vão pessoas que querem aprender. É evidente que uns têm a missão de ensinar, mas verdadeiramente também aprendem.
Eu nunca fui professor numa escola secundária, fui professor nas universidades e sei bem o que aprendi com os meus alunos. A escola tem de ser um espaço de diálogo, um espaço de encontro. Uns têm a missão de ensinar, outros têm o dever de aprender, mas verdadeiramente isso é o que se passa apenas com os chamados conteúdos da aprendizagem.
Verdadeiramente, a missão da escola, para além dessa, que é essencial e é principal, é criar condições para que nós percebamos que viver em comunidade significa respeitarmos meia dúzia de regras em comum, para nos considerarmos uns aos outros e depois sermos capazes de satisfazer as nossas necessidades coletivas – saúde, habitação, uma escola de qualidade, estradas, cultura, ciência, investigação – e depois sermos livres nas nossas liberdades, em função daquilo que são as nossas convicções e que são os nossos gostos.
E ver que esta escola não se deixou uniformizar pelo básico, mas que, mantendo o essencial, é capaz de encontrar soluções diferenciadoras para quem precisa dessa diferença, para ter, como dizia o nosso Presidente da Câmara, condições para ter as mesmas oportunidades, em função das suas competências, é esse o papel de um Estado social e é esse o papel da escola.
Aquilo que eu vi naquele espaço, onde estão pessoas que têm outras condições, do ponto de vista físico ou do ponto de vista mental, é extraordinário.
E as pessoas que lá estão e trabalham todos os dias com os vossos colegas têm uma coisa que não há preço nenhum, salário nenhum que pague, que é um coração enorme e uma disponibilidade enorme. E numa altura em que coração, amor, felicidade, empatia, fraternidade parecem uma banalidade, pois o vosso Presidente da República considera que não devemos ter vergonha de utilizar essas palavras em público e voltarmos a concretizá-las com exemplos concretos como estes que existem aqui na vossa escola. O mesmo se pode dizer da integração das diferentes nacionalidades que aqui estão presentes, a começar pela portuguesa e depois todas as outras, cerca de 27, 28 nacionalidades que aqui estão presentes, portanto, cerca de 30 nacionalidades.
Que felicidade, para um Presidente da República, ver que na escola, nos mais jovens, essa fraternidade, essa generosidade nos fazem olhar para o outro como gente igual a nós. Seres humanos, porque têm uma cabeça, têm olhos, têm braços, têm mãos, têm pernas, têm pés, têm cérebro, têm coração. Aqui está o exemplo de que é possível uma verdadeira integração e caminharmos todos nesse sentido comum, nesse chão comum, que eu tantas vezes disse que precisamos de cuidar e de preservar.
Não digam que não é possível. Aqui nesta escola mostra-se como é possível e mostra-se com resultados concretos como essa possibilidade resulta em benefício das pessoas. Por isso, Senhora Diretora, na sua pessoa, quero cumprimentá-la a si e a todos aqueles que diariamente constroem esta escola.
Esta escola é mais do que paredes, é mais do que cimento, é mais do que vidro, é mais do que madeira. É coração e é inteligência e é, sobretudo, sensibilidade, para nós podermos, de facto, ter comunidades coesas.
E é a coesão social que preocupa o Presidente da República nos tempos atuais. Nós não conseguimos avançar como país se não tivermos coesão social entre nós. Se uma parte da nossa população – pode ser minoritária, mas é uma parte de nós, de seres humanos – não tiver acesso à saúde a tempo e horas, não tiver acesso a uma habitação, não tiver, no fundo, as condições essenciais para que os seus sonhos se possam concretizar, o deslaçar social começa precisamente aí.
Quando as pessoas sentem que não fazem parte, que não beneficiam da riqueza que é gerada, do progresso que é gerado. Sim, porque este é um país também de progresso e de criação de riqueza e de ambição e de gente excelente.
Aqui, nesta escola, há bons exemplos. A começar pela escola de dança, a começar pelo trabalho que é feito, conjuntamente com outras 26 escolas no país, em que se consegue conciliar as capacidades e as competências do ponto de vista desportivo, dos atletas que se querem desenvolver, com a atividade escolar, que é a formação essencial para que nós possamos ter uma vida melhor, quer em termos profissionais, quer também como melhores cidadãos. Nós precisamos de tratar desta coesão social como de pão para a boca, para garantir que de facto todos nos sintamos membros de uma mesma comunidade.
Nós hoje temos demasiados instrumentos que nos destroem e, sobretudo, contribuem para nos pôr uns contra os outros. E fazem isso com uma rapidez enorme, sem nos dar sequer tempo para refletirmos, como se estivéssemos obrigados a ter de agir no segundo seguinte, muitas vezes desrespeitando os outros e, na maior parte das vezes, acusando, julgando e sentenciando, sem que o outro tenha a possibilidade sequer de se expressar. Parece que vivemos em condomínios fechados, em que não ouvimos, não lemos e não somos capazes de perceber que há uma diferença no outro e que a devemos ouvir, que a devemos respeitar, tal como o outro deve respeitar e ouvir as nossas diferenças e as nossas opiniões.
Nós não podemos aceitar isto como inevitável, porque isso mina a nossa relação como seres humanos, mina a nossa sociedade, mina a nossa coesão social. E é esse o apelo que o Presidente da República deixa, sobretudo quando hoje, aqui, estamos a assinalar a requalificação de uma escola que, verdadeiramente, mantém na sua essência este projeto de integração, este projeto de ambição, este projeto de educação.
E os jovens são os melhores aliados para compreenderem o valor da solidariedade e da generosidade, porque são aqueles que verdadeiramente ainda têm o coração mais puro para podermos fazer e dar esses contributos para criar um país coeso. Nenhum país consegue vencer as suas dificuldades, e nós também temos dificuldades, se não estivermos unidos no essencial.
Eu ontem convoquei os partidos para irem a Belém, porque considero que os partidos são essenciais em democracia. Eles têm divergências. Mas faço-vos uma pergunta. A divergência deve ser uma desculpa para a inação? Para não se agir?
Quando eu olho os resultados e vejo que em Portugal, em média, os jovens saem de casa dos seus pais aos 30 anos. Estão a adiar, não é só o problema de não terem uma casa para si. Estão a adiar o seu futuro, o seu projeto de vida, a sua autonomia. Então não é responsabilidade dos partidos políticos, do parlamento, dos governos, de contribuírem com soluções em conjunto para resolver essa situação? Sobretudo numa área em que ninguém tem a solução de criar casas de um dia para o outro? Precisamos de anos. E esses anos ultrapassam legislaturas, mudam governos.
Então os partidos não têm o dever e a obrigação de se pôr de acordo em soluções que possam ajudar os portugueses, designadamente os jovens, a terem esse acesso à habitação? Ou mesmo na área da saúde? É aceitável que as pessoas queiram ter e precisem de aceder a cuidados de saúde e não os terem no tempo certo?
Muitas vezes o que eu vejo nos partidos é o passa-culpas. É um jogo de trica partidária que deve ser posta de lado e concentrada em resolver os problemas concretos das pessoas. Eu não peço que os partidos abdiquem de ser o que são, nem que deixem de ter e de lutar pelas suas ideias: isso é bom.
Aquilo que é o dever do Presidente da República, neste momento, é exigir que os partidos cumpram a sua função, se sentem, dialoguem e sejam capazes de encontrar soluções para resolver os problemas.
Eu vejo alguns dizer: «Bem, o Presidente da República faz esses apelos, mas isso está tudo condenado ao fracasso».
Isso deve ser motivo para o Presidente da República ficar de braços cruzados? Pelo contrário. Eu olho para os problemas do país e é aí que eu sinto a urgência, sinto a responsabilidade. E por isso vou continuar sempre a exigir que possa haver condições entre os partidos para encontrarem soluções, para resolverem problemas que possam contribuir para reforçar a nossa coesão social.
É sabido que o Presidente da República não governa. O Presidente da República não legisla, não é ele que faz leis. Mas o Presidente da República, tal como o entendo, deve ser um Presidente de equilíbrio, que está acima dos partidos, que ouve todos por igual, que respeita todos por igual e que deve ser exigente com os partidos políticos para que eles ponham em comum soluções para melhorar a vida das pessoas.
Nós vivemos em tempos de fragmentação. Nós temos dez partidos representados no Parlamento. Temos um Governo que não dispõe de uma maioria parlamentar. Portanto, os partidos devem fazer esforços e caminhar, sem abdicar daquilo que são as suas posições essenciais, para criar também condições de estabilidade e condições de governabilidade.
E eu quero dizer isto hoje aqui, perante vós, perante jovens: envolvam-se na política, na política do “pê” grande, porque é a política que resolve os problemas das pessoas, não é a política da trica, do passa-culpas, do adiar constante. Assim não saímos da cepa torta.
E nós temos um país para construir, um país para ajudar a ser melhor, um país que deve crescer economicamente de uma forma sustentável e temos de encontrar condições para o vosso talento, porque todos vós, ou pelo menos a esmagadora maioria, prosseguirão os vossos estudos na universidade e devem ter oportunidades de emprego no nosso país ao nível do esforço que fizeram, das qualificações que obtiveram e da capacidade e do talento que têm.
Esse é um trabalho coletivo de todos nós. Nós devemos ter um desígnio, devemos ter uma estratégia. E é esse apelo que eu hoje aqui deixo na inauguração desta requalificação da escola aqui em Leiria.
Porque fazer uma inauguração de uma escola ou fazer a inauguração da requalificação é abrir portas para o futuro. E é verdadeiramente de futuro que nós aqui falamos.
E se me permitirem, e se me derem mais cinco minutos, então vou ler aquilo que tinha previsto para ler. Está bem?
E é com particular emoção, dizia eu no início, que regresso a Leiria, onde estive durante a minha campanha eleitoral, mas, mais recentemente, no âmbito da Presidência Aberta, pois foi precisamente aqui, na Região Centro e em Leiria que decidi fazê-la.
Nestas ocasiões, pude testemunhar de perto os estragos provocados pela tempestade «Kristin», mas também a determinação e a capacidade de resposta das populações, dos autarcas, das instituições e dos muitos voluntários que se mobilizaram para enfrentar as suas consequências.
A tempestade atingiu duramente este território e deixou marcas profundas em muitas comunidades. A Escola Secundária Afonso Lopes Vieira foi também fortemente afetada, com a destruição de uma parte significativa das suas instalações.
Foi necessário encontrar soluções, adaptar espaços e garantir que, apesar das dificuldades, os alunos podiam continuar a aprender e os professores a ensinar.
Hoje, ao assinalarmos a conclusão destas obras de requalificação, celebramos uma etapa muito importante na recuperação desta escola e também desta região. Contudo, este momento não deve fazer-nos esquecer as adversidades vividas por esta população.
Como já tive oportunidade de afirmar, o acompanhamento das consequências da tempestade «Kristin» não terminou com a minha Presidência Aberta. Nesse sentido, já solicitei ao Governo, às autarquias e demais entidades informação atualizada sobre o processo de recuperação, os resultados alcançados, as dificuldades que persistem e as medidas adotadas para prevenir futuras situações de emergência.
Com base nessa informação, será elaborado um relatório de acompanhamento que permitirá fazer um balanço do trabalho realizado, identificar o que continua por resolver e avaliar as medidas necessárias para reforçar a segurança desses territórios.
Aqui também quero ser muito claro: o Presidente da República tem a sua agenda ligada aos problemas e às ambições do País. E nunca trocará esta agenda pela agenda mediática daquilo que, em cada momento, é mais suscetível de gerar a atenção mediática.
Estive cá no dia a seguir a essa tragédia, estive cá depois, vim durante a Presidência Aberta, foi elaborado um relatório escrito, houve várias reuniões com o Governo e agora quero avaliar como é que está a ser executado e quais foram os resultados de execução de todas as medidas.
Sabendo que várias delas funcionaram, estão a correr bem, outras se calhar menos bem, esta é a responsabilidade do Presidente da República: não deixar que os assuntos relevantes que têm impacto na vida das pessoas sejam esquecidos só porque já não abrem telejornais.
Este trabalho é fundamental para garantir que as dificuldades vividas pelas populações não sejam esquecidas e que Portugal retire desta experiência os ensinamentos necessários para estar mais bem preparado. A prevenção, a resposta dos equipamentos e a capacidade de assegurar o funcionamento dos serviços essenciais têm de continuar a ser prioridades.
A conclusão das obras desta escola é, neste contexto, um sinal importante do caminho que tem vindo a ser percorrido.
Quero, por isso, deixar uma palavra de reconhecimento a todos os que contribuíram para a sua recuperação: no âmbito do PRR, ao Governo, à Câmara Municipal de Leiria, à Senhora Vereadora da Educação, ao construtor, aos arquitetos, à Escola, a todas e a todos os que contribuíram para este propósito.
A capacidade de resposta desta comunidade educativa é também um exemplo da determinação das pessoas de Leiria, que souberam enfrentar com coragem uma das maiores adversidades que o nosso País atravessou nos últimos anos. Uma tragédia. devemos chamar as coisas pelos nomes e devemos colocar os nomes certos.
Esta recuperação permite-nos também olhar para aquilo que verdadeiramente dá sentido a uma escola. Mais do que as suas instalações, uma escola faz-se das pessoas que lhe dão vida, como há pouco referi, e de tudo o que lá acontece diariamente: a aprendizagem, a relação entre alunos e professores e as oportunidades que se abrem para o futuro de cada um de vós, os jovens.
Esta escola, com mais de mil alunos de 28 nacionalidades distintas, demonstra bem o papel da educação na integração das nossas comunidades. É na escola que crianças e jovens de diferentes origens aprendem a conhecer-se, a respeitar-se e a reconhecer que muito mais é aquilo que os une do que, verdadeiramente, aquilo que os separa.
É também aqui que cada aluno deve encontrar condições para descobrir e desenvolver o seu potencial. Para isso, importa valorizar os diferentes percursos educativos e reconhecer que há várias formas de aprender, adquirir competências e construir um futuro.
É neste contexto que quero dirigir também uma mensagem aos alunos do ensino profissional desta e de muitas outras escolas do nosso País.
Durante demasiado tempo, criou-se a ideia de que o ensino profissional seria uma alternativa de segunda escolha. Essa ideia não corresponde ao País de que nós precisamos. Portugal precisa de um ensino regular exigente, mas também de um ensino profissional forte, capaz de formar técnicos qualificados que respondam à escassez de recursos em vários setores da nossa economia.
Escolher um curso profissional é uma opção com valor, que exige trabalho, conhecimento e preparação. Permite adquirir competências técnicas específicas, abrir portas para o mercado de trabalho e contribuir para o desenvolvimento do nosso País.
A valorização do ensino profissional pode ainda ser uma via determinante para a transformação do perfil económico do nosso Portugal, preparando jovens capazes de responder a novos desafios, trabalhar com tecnologias e criar valor acrescentado.
É esse o objetivo dos Centros Tecnológicos Especializados, cujo investimento feito nos últimos anos foi significativo. Estes espaços permitem aproximar a formação dos alunos das condições e exigências do mundo profissional. Daqui seguirei precisamente para a Escola Profissional de Leiria, para inaugurar um desses centros.
Não quero, contudo, terminar sem me dirigir de uma forma muito particular aos alunos. Quero começar por vos agradecer pela forma corajosa como enfrentaram este período difícil. A escola que hoje encontramos é o resultado do trabalho de muitas pessoas, mas é também a escola que vocês continuaram a frequentar, a viver e a construir, mesmo quando as condições não eram as melhores.
E aqui também uma palavra aos vossos professores. Os professores são do melhor que nós temos no nosso País. A sua capacidade, a sua tenacidade, a sua coragem fazem a diferença em cada um de nós.
Quantas vezes não encontramos alunos que se voltam para um professor e dizem: «foi graças a si que tenho uma vida melhor», ou «foi graças a si que fiz esta opção», ou «foi graças a si que não desisti». Nunca esqueçamos o papel determinante que um professor tem, não apenas em ensinar, mas na formação de um aluno.
E é a uma aluna que eu quero deixar uma palavra muito especial: à Camilly Lins, que está ali sentada e que teve a amabilidade de me oferecer um desenho a grafite, onde eu estou melhor do que na realidade. Ela também tem essa qualidade. E fiquei muito, muito sensibilizado com este gesto e agradeço-lhe a sua generosidade de partilhar comigo o seu talento.
A Camilly é uma aluna surda que frequenta diariamente as aulas com os seus colegas e participa ativamente na vida artística da escola. O seu percurso recorda-nos que a inclusão se constrói todos os dias, na sala de aula, quando existem as condições adequadas para que cada aluno participe, aprenda e partilhe aquilo que de melhor sabe fazer. Camilly, o teu desenho é um gesto que guardarei com enorme carinho, muito sensibilizado. Muito obrigado, Camilly.
Quero ainda agradecer aos alunos do Conservatório Annarella Sanchez pelo brilhante momento artístico com que nos presentearam. As artes são uma parte essencial da formação dos jovens e merecem continuar a ter um lugar importante nas nossas escolas. Parabéns pelo vosso trabalho.
Por fim, a todos os alunos, deixo uma mensagem: não há caminhos de primeira e caminhos de segunda quando falamos de construir o nosso futuro. Há caminhos diferentes, talentos diferentes e diferentes formas de contribuir para o País. O que importa é que cada um de vós tenha a oportunidade de encontrar o seu caminho, ser bem-sucedido e concretizar cada um dos vossos sonhos.
Que esta escola continue a ser o lugar onde cada aluno encontra oportunidades para aprender, onde as diferenças são respeitadas e onde se prepara, com confiança, o futuro desta região e o futuro do nosso País.
Muito obrigado pela vossa atenção.