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Presidência da República Portuguesa

Presidência da República Portuguesa

Declaração do Presidente da República a propósito da morte do Presidente Jorge Sampaio

O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa proferiu uma declaração, no Palácio de Belém, a propósito da morte do Presidente Jorge Sampaio.

“Portugueses,

Acabei de exprimir à família do Presidente Jorge Sampaio, em dor, o pesar de todos vós.

Lutando, mas serenamente, nos deixou hoje o Presidente Jorge Sampaio.

Lutando serenamente. Como sereno foi o seu testemunho de vida, ao serviço da liberdade e da igualdade.

Sereno na sua luminosa inteligência.

Sereno na sua profunda sensibilidade.

Sereno na sua paciente, mas porfiada coragem.

Jorge Sampaio nasceu e formou-se para ser um lutador e a causa da sua luta foi uma: a liberdade na igualdade.

Na carismática afirmação, no movimento estudantil do início dos anos 60.

Na defesa, em tribunais plenários, dos presos políticos durante a ditadura.

Na representação externa da democracia nascente.

Na construção de pontes, década após década, entre formações diversas, no seu hemisfério político e para além dele.

Na adesão ao Partido Socialista, de que viria a ser deputado, líder parlamentar e líder nacional.

Na formação da primeira e mais vasta coligação pré-eleitoral de esquerda da nossa História democrática.

Na Presidência da Câmara Municipal de Lisboa, após uma rara campanha de ideias, com visão estratégica, prioridade aos mais pobres e excluídos, preocupação com as pessoas, os seus sonhos, os seus dramas, a sua realidade.

Na devotada e prestigiante Presidência de Portugal.

Lançando a Cimeira de Arraiolos, com todos os Chefes de Estado europeus eleitos não presidencialistas.

Criando a COTEC, com empresários portugueses, espanhóis e italianos, pela inovação e responsabilidade social.

Recriando as Presidências abertas do seu antecessor, com a constante presença de Maria José Ritta.

Podendo ter-se resignado ao caminho mais fácil do jurista respeitado, da quietude da sua origem social, do natural ascendente da sua cultura, do seu pensamento, da sua oratória, escolheu o caminho mais ingrato, da solidariedade para com os que mais sofriam, do convívio com o concreto, da privação da sua saúde, frágil, em exaustivos e desgastantes labores.

Ninguém esquecerá momentos únicos dessa entrega.

As intervenções decisivas desse furacão ruivo na Alameda da Universidade de Lisboa, em 1962.

A madrugada da libertação dos detidos em Caxias, após o 25 de Abril.

A conversa com Álvaro Cunhal, antes da segunda volta da eleição de Mário Soares, em 1986.

A travessia, em noites de vendaval, dos bairros de lata da capital, que, com o Governo de então, conseguiu extinguir.

Os meses sem dormir, passados, nesta casa, em Belém, por causa de Timor-Leste.

A oposição à intervenção no Iraque.

A dedicação à saúde pública global – herança do magistério paterno – e ao diálogo entre religiões, culturas e civilizações.

O exemplar acolhimento dos refugiados sírios, fugidos das tragédias das guerras.

E, sempre, as lágrimas genuínas do homem bom, porque era um homem bom, na partilha da alegria tal como da dor alheias.

Jorge Sampaio deixou-nos hoje com um duplo legado.

Duplo – porque feito de liberdade, mas também de igualdade.

Duplo – porque feito de inteligência, mas também de sensibilidade. Porque provou que se pode nascer privilegiado e converter a vida na batalha pelos não privilegiados.

Sempre lutando, mas com serenidade. Aquela serenidade que une a força das convicções ao respeito por cada um e por todos os demais. De bem com todos e todos de bem com ele.

A corajosa serenidade de um grande Senhor da nossa Democracia, de um grande Senhor da nossa Pátria comum.”

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