Publicado em 1979, “Memória de Elefante” foi um dos livros mais significativos da cultura portuguesa em liberdade. O estilo dessa obra de estreia, e das seguintes, denso mas coloquial, memorialístico, provocador, poético e político, marcou um novo tom no romance português, género que teria na década de 1980 assinalável sucesso crítico e editorial, e inédita repercussão no estrangeiro.
António Lobo Antunes escreveu toda a sua obra de romancista, mas também de cronista, num registo de ternura contundente, com a mágoa e o fracasso das vidas comuns postos lado a lado com as tragédias políticas, o excesso e a empatia. Herdeiro de Céline, de Faulkner, de Cardoso Pires, Lobo Antunes deixou uma bibliografia vasta, visceral, sofisticada em termos narrativos, atenta ao quotidiano, e muito tributária de experiências como a guerra e a prática clínica da psiquiatria.
Ninguém terá sido mais imitado pelas gerações seguintes do que Lobo Antunes, poucos foram tão lidos, traduzidos, premiados e estudados. Isto sem nunca procurar qualquer unanimidade, sendo conhecido pelas opiniões fortes, que a prática da crónica converteu de certo modo em compreensão da melancolia e da fúria de viver.
Seu leitor, admirador e amigo há décadas, pude em 2022 atribuir-lhe as insígnias da Grã-Cruz da Ordem de Camões, com a certeza de que poucos representaram tão bem a grandeza literária de um país territorialmente pequeno. Vou agora depositar junto dele o Grande-Colar da mesma Ordem, símbolo máximo da literatura portuguesa.
A sua mulher, filhas e demais familiares manifesto o meu pesar e a grata homenagem de todos os que viveram com os livros e através dos livros de António Lobo Antunes.