Há momentos em que a História não pede permissão para nos interpelar. São momentos em que o tempo presente se curva diante do passado e nele se olha, à procura do que somos e de onde vimos. O Dia do Combatente é um desses momentos. Uma data que celebra aqueles que, sendo chamados à guerra, encontraram em si mesmos a força para cumprir e, muitos deles, a sabedoria para um dia abraçar a paz.
Nesta data, Portugal honra todos quantos, ao longo dos séculos, vestiram a farda da Pátria e partiram, muitas vezes sem saber se voltariam, por obrigação, por convicção, ou simplesmente porque era o que se esperava de um cidadão. Evocamos os que estiveram nas origens da independência; os que defenderam a pátria de invasões ao longo da nossa história; os que já em plena modernidade enfrentaram o inimaginável em La Lys; os que resistiram em África; os que cumpriram e cumprem missões Humanitárias e de Paz, mas também os que apoiaram o nosso povo em emergências e catástrofes; todos os que servem Portugal com lealdade e dedicação. Portugal honra os que regressaram. E honra, em silêncio e com o peso que o silêncio merece, os que não regressaram.
Cada combatente transporta consigo uma parte da História de Portugal.
Em cada missão, longe ou perto, há sempre alguém que, ao olhar a Bandeira Nacional, recorda que não se serve sozinho. Serve-se Portugal.
Por isso este dia é tão importante: porque nos devolve o sentido do essencial.
A coragem não está apenas nos grandes feitos. Está nas escolhas silenciosas, nos turnos infindáveis, nos passos dados na escuridão, nas vigílias discretas e nas navegações nos nossos espaços que a natureza determinou.
Neste dia de memória e homenagem, deixo palavras de gratidão, dignidade e respeito.
A gratidão que hoje expressamos reconhece que Portugal deve muito à coragem e à entrega daqueles que o serviram.
Cada combatente, no silêncio dos seus sacrifícios, contribuiu para o Portugal onde hoje vivemos, em liberdade e em segurança.
A dignidade com que tratamos aqueles que serviram a Pátria é a expressão do respeito que lhes é devido, tenham sido, esses homens e mulheres, militares dos quadros permanentes, militares em regime de contrato ou incorporados. A todos, assegurar apoio, justiça e reconhecimento significa garantir que nenhum combatente é esquecido e que o país honra, de forma concreta, todos os que o defenderam e defenderão. É nesta dignidade que se afirma o compromisso que Portugal assume com os seus servidores.
O respeito por aqueles que deram a vida ao país, por aqueles que a arriscaram sem hesitar, e por muitos que regressaram com marcas, umas visíveis, outras, para sempre guardadas na alma.
Combatentes de Portugal,
Fala-se muito do combatente como aquele que vai à guerra. Fala-se menos e devia falar-se mais, do combatente como aquele que conhece a guerra por dentro e, por isso mesmo, mais do que ninguém, sabe o valor da paz. Quem viu de perto o sofrimento que a violência das armas provoca nas populações civis, nas famílias, nos próprios camaradas caídos, não é capaz de falar da guerra com ligeireza. É esse testemunho, duro e insubstituível, que os nossos veteranos carregam. E é por isso que a sua voz importa, sobretudo nos tempos de escuridão e imprevisíveis que vivemos. Quem conhece a guerra por dentro sabe, melhor do que ninguém, o valor da paz.
Combatentes de Portugal,
Muito se escreveu e muito se debateu sobre as guerras que Portugal travou. É natural que assim seja, as sociedades democráticas vivem do debate e da reflexão crítica, e o nosso país não poderia ser exceção. Mas num ponto não pode haver ambiguidade: os homens e mulheres que serviram merecem o nosso respeito incondicional. Eles cumpriram o dever que lhes foi exigido pelo Estado, a custo de sacrifícios que a maioria de nós não é chamada a fazer. Muitos voltaram com feridas que nenhum diagnóstico clínico conseguia então nomear. Voltaram e tiveram de reconstruir as suas vidas, muitas vezes sozinhos, muitas vezes em silêncio.
Cinquenta anos depois de Abril de 1974, que os nossos militares ajudaram a construir, precisamos de olhar para os nossos veteranos com uma gratidão que não se esgota em palavras de circunstância.
Muitos antigos combatentes que defenderam a bandeira de Portugal no século passado e neste, esperam há demasiado tempo por respostas. É justo reconhecê-lo.
Reconhecer avanços não basta se persistirem lacunas. A gratuidade dos medicamentos para pensionistas, a majoração dos apoios de saúde, a revisão de benefícios foram evoluções, mas ainda há muito caminho para andar. A dignidade daqueles que serviram a Pátria não se compadece com adiamentos intermináveis. Nenhum combatente deve sentir que o país pelo qual serviu o abandonou. Confio na capacidade do Governo para corresponder às expectativas e às necessidades dos nossos combatentes.
Combatentes de Portugal,
Hoje, Portugal tem Forças Armadas profissionais, modernas e respeitadas. Participamos em missões da NATO, das Nações Unidas, da União Europeia. Os nossos soldados, marinheiros e aviadores servem em teatros de operações distantes, muitas vezes em condições de grande exigência e perigo. Fazem-no com competência e com honra. E fazem-no, importa dizê-lo, não para glorificar o conflito, mas para contribuir para a sua resolução. A presença de Portugal nessas missões é a presença de um país que acredita que a paz se defende, que a segurança se constrói coletivamente, e que nenhuma nação pode ficar indiferente ao sofrimento dos outros.
Esta linha de continuidade entre as gerações de combatentes, do soldado que partiu para África nos anos sessenta ao militar que hoje cumpre missão noutras regiões do mundo, é uma das marcas mais profundas da identidade das nossas Forças Armadas. Muda o contexto, muda o enquadramento político e jurídico, muda o mundo. Mas não muda o essencial: a entrega, o sentido de missão, e a consciência de que servir a Pátria é também servir a causa da paz.
Como Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas, dirijo-me hoje a todos os combatentes e às vossas famílias com uma mensagem clara: esta Presidência não estará indiferente às vossas causas. Os combatentes de Portugal não são um tema de arquivo. São uma presença viva, ativa e merecedora da atenção permanente do Estado e da sociedade.
E às mulheres e homens que servem hoje nas nossas Forças Armadas, digo: Portugal precisa de vós. Valoriza a vossa entrega. Acompanha o vosso serviço com orgulho e com responsabilidade. Sois a garantia de que este país continua fiel ao seu compromisso mais profundo: o de um povo que não quer a guerra, mas que nunca recuou perante o dever de defender a liberdade, a independência nacional e a paz.
Que os combatentes de Portugal sejam sempre lembrados não apenas como os que partiram para a batalha, mas como os que, ao regressar, trouxeram consigo o desejo inabalável de que os seus filhos e netos não precisassem de fazer o mesmo. Esse desejo, esse legado silencioso, é também uma forma de construir a paz. E é também uma forma de amor à Pátria.
Combatentes de Portugal,
A vossa coragem e o vosso serviço marcam desde sempre a História de Portugal. A vossa vida é a fronteira que nunca cedeu.
Quando recordamos o vosso serviço, afirmamos também a nossa identidade: um país livre, seguro e consciente do preço da sua liberdade.
O vosso legado permanecerá vivo, na memória e na forma como escolhemos construir o futuro de Portugal.
Viva Portugal!