Permitam-me que, na inauguração do Festival Babell, e antes de visitarmos a intervenção do arquiteto Álvaro Siza Vieira na Livraria Lello, comece com uma citação. O autor destas frases morreu há 40 anos e várias vezes referiu a sua ligação a Portugal, onde os seus antepassados tinham raízes:
«De todas as ferramentas da humanidade, a mais surpreendente é, sem dúvida, o livro. As outras são extensões do corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da visão; o telefone é uma extensão da voz; depois há o arado e a espada, extensões do braço. Mas o livro é completamente diferente: o livro é uma extensão da memória e da imaginação».
Jorge Luis Borges não imaginava que, para o bem e para o mal, o telefone se ia transformar numa espécie de nervo central da nossa cultura contemporânea, mas a ideia permanece e todos nós a compreendemos: o livro tem sido uma extensão da nossa memória e da nossa imaginação.
Antigamente, os príncipes precisavam dos escritores para consolidarem o seu poder, tal como o faraó precisava de escribas para registarem a sua riqueza. Depois, a escrita percorreu outros caminhos e os autores passaram também a ser a sua própria voz, uma voz à procura de leitores. E os leitores passaram a procurar os seus autores.
Ao longo dos séculos, e hoje especialmente, porque é o nosso tempo, e o conhecemos melhor, talvez as pessoas precisem de autores que relembrem sonhos e desilusões – e que mencionem as suas vidas e também as vidas que ainda desconhecem.
É um roteiro que está permanentemente a ser reinventado e do qual falamos sempre que tratamos do livro, ou seja, dos livros, da literatura e da leitura.
Não há nada de verdadeiramente novo que possamos dizer sobre o significado, o valor e o papel do livro. Isso não significa que estejamos «cansados do livro», mas que uma certa plenitude o transformou numa referência imprescindível para as nossas sociedades e para as nossas vidas.
No mundo de hoje, continuamos a pensar que aquilo que aprendemos de verdadeiro está nos livros, na sua leitura individual, na sua comunicação discreta.
A sociedade do espetáculo, a sociedade dos média, devora parte dessa autenticidade que atribuímos ao livro. Mas não pode fazer-nos esquecer que ele é uma das invenções mais belas e mais perfeitas da humanidade. E que a revolução da leitura e da literacia foi uma das mais importantes da nossa história moderna – talvez nenhuma grande transformação social tenha sido tão preciosa para a nossa civilização. Ocorreram em bibliotecas, em cafés, em clubes, em universidades e, finalmente, em livrarias. Foi um acontecimento muito simples: em meados do século XVIII, um grande número de «pessoas comuns» começou a ler.
Essa revolução possibilitou a circulação sem precedentes do conhecimento, da informação e da sensibilidade de homens e mulheres de cada época, o desenvolvimento da ciência e das instituições democráticas, o nascimento da ideia dos Direitos Humanos e da ideia de liberdade de expressão. Possibilitou também o fim dos índices de livros proibidos e encerrados em bibliotecas inacessíveis.
Até chegarmos aqui, a este festival. Podia falar-vos de uma dezena de eventos meritórios e felizes a que o Festival Babell se vai juntar a partir de agora, desde as grandes feiras do Livro de Lisboa e do Porto às Correntes, do festival Utopia (em Braga) ao Fólio (em Óbidos), do Literatura em Viagem (em Matosinhos) à Festa do Livro de Belém, para a qual vos convido a visitar este ano, naturalmente.
Isto é o resultado de uma caminhada que fizemos em comum. Uma caminhada que uniu livreiros, editores, autores, autarquias, entidades públicas e privadas que nunca deixaram de acreditar numa ideia muito simples: que a leitura e os livros podem unir as pessoas e são um antídoto contra o extremismo, o esquecimento e a exclusão. São um antídoto contra a infelicidade, também.
Os livros alimentam as palavras do meio que tanto precisamos para a nossa sociedade.
Esta caminhada acompanhou o amadurecimento da nossa democracia, a democratização da leitura, o crescimento das redes de leitura pública. Este crescimento significa que temos uma oportunidade entre mãos: a de fazermos mais leitores e, sobretudo, melhores leitores.
Porque a paixão e o entusiasmo são obra de um instante. E nós precisamos de prolongar a paixão no tempo – e com o tempo. Para isso contamos com estes festivais, com as livrarias, com as escolas e as famílias.
Este festival mostra que as entidades e instituições públicas e privadas podem associar-se para fins culturais de relevo. Essa associação é não só meritória mas necessária, está no coração da própria democracia e chama-se simplesmente cooperação. Devemos incentivá-la, quer com uma lei do mecenato mais atrativa, quer com a noção de que a responsabilidade social da riqueza pode contribuir para que o mundo da cultura não dependa apenas de financiamento público, mas do interesse, da paixão e do compromisso da sociedade civil, das famílias, das fundações e do mercado.
Tudo isto a par da responsabilidade política, dos poderes públicos, de fomentar a leitura, o contacto com os museus, o interesse pela música e pelo cinema, pelo teatro e pela dança, pela fotografia e pela pintura. Pela criação de públicos.
São públicos que durante estes dias transformarão o Porto numa cidade invadida pelo livro e por autores como Salman Rushdie, Julian Barnes, Olga Tokarczuk, Javier Cercas ou Margaret Atwood, além de muitos que escrevem na nossa Língua, entre os quais Valter Hugo mãe aqui presente. O Porto vai ser uma cidade invadida por leitores sentados nos jardins e nas suas salas históricas, procurando os seus autores. Procurando a palavra.
Portanto, o Porto vai ser, durante estes dias, e acredito que durante muito tempo, uma cidade-livro. Devo deixar uma palavra de agradecimento à Câmara Municipal do Porto e ao seu Presidente, bem como à Fundação Livraria Lello, à família Pedro Pinto e aos seus criadores, por terem acreditado que era possível este festival dedicado à cidade, aos leitores, aos autores – e aos que fazem do livro o seu mundo.
Esse mundo não nasceu hoje. Desde 1488, data da impressão do primeiro livro em Português, até à realização deste festival, há muito para incluirmos na história da beleza dos livros, na história da nossa Língua, na história da leitura e da passagem do tempo.
Pelo livro sabemos que não nascemos hoje, mas no tempo dos nossos antepassados que imprimiram o primeiro livro, que sujaram os dedos com a tinta dos caracteres móveis, que abriram livrarias como a Lello, a Casa Moré ou a Chardron, aqui no Porto, ou editores que, também no Porto, arriscaram bolsa e prestígio para que pudéssemos ter Eça e Camilo, Camões e Garrett, Cesário Verde e Eugénio de Andrade ou Agustina Bessa-Luís.
Por isso é tão importante esta nova e bela extensão da Livraria Lello, uma conjugação de tradição e atualidade, de passado e futuro, de consagração do que foi e de busca pelo que há de ser. É por isso que precisamos de ideias, de criatividade e de criadores.
O seu mundo, o mundo do livro, é também o do silêncio das bibliotecas, das livrarias e dos alfarrabistas do Porto. O seu mundo é também o do papel em que são impressos, os debates ruidosos que arrastavam multidões desde que houve universidades, centros de cultura e de conhecimento, e em que nada era proibido dizer-se, pensar-se ou escrever-se.
Talvez por isso, como dizia Jorge Luis Borges, «ler um livro antigo é como ler todo o tempo que passou desde o dia em que foi escrito». E devemos fazê-lo, acrescentava, «não com reverência supersticiosa, mas com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria».
É por isso que aqui estamos.
Viva o livro.