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Intervenção na visita ao i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto

Acabei de visitar três laboratórios e duas plataformas. Em menos de uma hora.

No laboratório de imunologia, cancro e glicoMedicina, percebi como as moléculas de açúcar na superfície das nossas células podem ser a chave para tratar o cancro e as doenças inflamatórias intestinais. Que há hoje, neste instituto, um ensaio clínico em curso em Portugal com uma nova molécula testada em doentes com doença de Crohn. Ciência que saiu do laboratório e chegou ao doente.

No laboratório de regulação imunitária, percebi como a tuberculose, a doença infecciosa que mais mata no mundo, engana o nosso sistema imunológico com uma sofisticação que desafia décadas de investigação. E como investigadores deste instituto estudam o M. tuberculosis de cada doente individualmente, à escala do genoma, para perceber como cada bactéria interage com cada sistema imune.

No laboratório de circuitos neurais e esqueleto, percebi que o sistema nervoso e o tecido ósseo dialogam de formas que ainda não compreendemos completamente e que compreender esse diálogo pode mudar a forma como tratamos a artrite, a rejeição de implantes ortopédicos e o cancro do osso.

E nas plataformas, de histologia, de microscopia eletrónica, de tecnologias bioquímicas e biofísicas, percebi que a ciência moderna não é apenas inteligência. É também infraestrutura. Equipamento. Capacidade técnica acumulada ao longo de anos.

Não sou cientista e, como tal, não acompanho os mecanismos em detalhe. Mas percebo o que significa este lugar. O i3S é o maior instituto de investigação em saúde em Portugal. Cerca de 800 investigadores. Mais de 60 equipas. Três programas científicos que cobrem as doenças que mais matam, mais incapacitam e mais custam às nossas sociedades, cancro, doenças infeciosas, doenças neurológicas. Mas o que mais me impressiona não é a dimensão. É a ambição.

A investigação que aqui se faz não começa no laboratório e fica no laboratório. Começa no laboratório e quer chegar ao doente. Isso é ciência translacional. É lutar para criar as distâncias mais curtas possíveis entre o conhecimento e a vida das pessoas. E é exatamente isso que Portugal precisa de aprender a valorizar.

Confesso que há uma pergunta que me acompanha desde que comecei a percorrer o país, antes da eleição e depois dela. A pergunta é esta: porque é que Portugal tem ciência de referência internacional que a maioria dos portugueses não conhece?

Porque é que os investigadores que trabalham aqui, neste auditório que tem o nome de Mariano Gago, o ministro que mais fez pela ciência portuguesa em democracia, são praticamente invisíveis para o país para o qual trabalham todos os dias?

Esta invisibilidade tem um custo. Não é apenas um problema de comunicação. É um problema democrático e é um problema estratégico.

Democrático, porque uma sociedade que não conhece as suas capacidades científicas não consegue fazer escolhas informadas sobre o seu futuro. Não consegue exigir ao Estado que as financie com a consistência que merecem. Não consegue atrair os talentos que as podem reforçar.

Estratégico porque a saúde não é apenas um direito, é uma das maiores oportunidades económicas e sociais do nosso século para Portugal. As ciências da vida são um dos sectores de maior crescimento e de maior valor acrescentado da economia global. E Portugal tem aqui, e noutros locais do país, ativos científicos que poucos países da nossa dimensão têm. Deixem-me ser concreto.

Portugal tem hoje um ecossistema de investigação em saúde com dimensão estratégica real. O i3S é um dos seus pontos mais visíveis, mas há excelência noutros institutos, noutras cidades, noutras universidades, uma rede que existe, que produz conhecimento de referência internacional, e que raramente é reconhecida como o ativo estratégico que é.

O que falta a Portugal não é o ecossistema. O ecossistema existe. O que nos falta é a arquitetura que o torne visível, coerente e sustentável no tempo, independentemente dos ciclos políticos. Que ligue investigação básica a investigação clínica. Que ligue universidades a hospitais e a empresas. Que faça da ciência portuguesa em saúde não uma soma de centros de excelência isolados, mas um sistema com identidade, com voz e com estratégia.

É por isso que o Presidente da República está aqui hoje e procura manter uma presença ativa e permanente neste domínio. Não apenas em visitas como esta, embora estas visitas sejam essenciais, exatamente porque tornam visível o que está invisível. Mas através de uma presença institucional continuada que coloque a ciência no centro do debate público sobre o futuro do país.

Quero dizer uma palavra sobre o Centro de Excelência em Medicina Genómica que o Professor Cláudio Sunkel apresentou.

A medicina genómica é o futuro da medicina de precisão. A capacidade de ler o genoma de um doente e adaptar o tratamento às suas características específicas é uma das transformações mais profundas da história da medicina. E o Centro de Genética Preditiva e Preventiva do i3S faz já mais de dez mil testes genéticos por ano, integrado com o SNS, a prestar um serviço que sem ele simplesmente não existiria para estes doentes.

Um centro de excelência nesta área no Porto é um ativo nacional para Portugal. E é também uma oportunidade de Portugal afirmar uma posição no espaço europeu da saúde que vai muito além do que o nosso peso demográfico ou económico sugeriria. Porque em ciência, o que conta não é o tamanho do país. É a qualidade do trabalho. E a qualidade do trabalho que se faz aqui é inequívoca.

Senhoras e Senhores,

Este auditório tem o nome de Mariano Gago. Mariano Gago acreditou que a ciência era uma forma de soberania. Que um país sem investigação era um país dependente, das tecnologias de outros, dos fármacos de outros, das decisões de outros. E dedicou a vida a construir em Portugal as condições para que isso mudasse.

O i3S é, também, parte desse legado de pensamento estratégico. Como são os investigadores que aqui trabalham, muitos deles formados num sistema científico que ele ajudou a construir.

Cabe-nos agora dar continuidade a esse trabalho. Com o mesmo rigor. Com a mesma ambição. E com a consciência de que investir em ciência não é uma despesa. É a forma mais inteligente de investir no futuro. A forma mais acertada de criar desenvolvimento, unindo ciência e democracia para criar um país mais forte, mais próspero e mais justo.

Muito obrigado.