Um jornal assinalar o seu centenário já é obra. Um jornal regional conseguir atingir essa marca é notável.
Senhor Diretor do Correio do Minho, Dr. Paulo Monteiro, os meus parabéns. A si e a toda a equipa que, diariamente, trabalha na afirmação da cidadania. Na afirmação do direito a informar e do direito a ser informado.
Como escrevi na nota de abertura da obra do historiador Joaquim da Silva Gomes sobre este centenário, a imprensa local e regional desempenha um papel de grande relevo na nossa sociedade, contribuindo para a afirmação dos valores democráticos.
Está mais próxima das populações. Muitas vezes desenvolve a sua atividade sem fins comerciais, distinguindo-se por um forte sentido cívico. E, não raro, transporta uma carga afetiva para tantos cidadãos que vivem longe dos seus locais de origem.
É uma atividade nobre que, pelas suas particularidades, exige um trato pessoal e profissional que é, muitas vezes, qualidade apenas dos grandes jornalistas.
Exige também a afirmação de valores de independência e de capacidade crítica que atores relevantes da comunidade local, e sejamos justos, também da vida nacional, nem sempre aceitam de bom grado.
Sei que o Correio do Minho se pauta por esses valores. Foi, aliás, um dos principais motivos da sua fundação, pelo seu primeiro Diretor, Álvaro Pipa.
E o que se passou nos anos seguintes é um exemplo de como as liberdades não estão nunca definitivamente conquistadas e de como a liberdade de expressão pode ser rapidamente condicionada.
No entanto, mesmo nos anos da censura, o Correio do Minho reportou a pompa e a circunstância, é certo, mas soube também, muitas vezes, olhar com espírito crítico para as carências da população, para a ausência de infraestruturas públicas, para as raízes da emigração.
Por isso, este jornal é hoje também um repositório precioso de conhecimento sobre o nosso país e, em particular, sobre esta região. Faço votos para que a Arcada Nova, as entidades públicas, os historiadores e os investigadores criem sinergias para salvaguardar este importante património.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
A imprensa regional é muito mais do que um meio de comunicação. É um pilar da democracia e um agente de desenvolvimento das nossas comunidades.
É através dela que os cidadãos acompanham as decisões locais, conhecem os problemas da sua região e participam de forma mais informada na vida pública. Ao mesmo tempo, a imprensa regional fiscaliza o poder, promove a transparência e dá voz a quem, muitas vezes, não encontra espaço nos grandes meios de comunicação.
Além disso, valoriza a identidade, a cultura, as empresas e os projetos locais, contribuindo para o desenvolvimento económico, social e cultural das regiões.
Num tempo marcado pela desinformação e pela rapidez das redes sociais, o jornalismo regional continua a ser uma referência de proximidade, credibilidade e serviço público.
Defender a imprensa regional é defender uma democracia mais forte e comunidades mais informadas, participativas e preparadas para enfrentar os desafios do futuro.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Talvez saibam que eu próprio, muito mais novo, fui um dos fundadores e o primeiro diretor de um jornal local. Adorei a experiência. A descoberta, a aprendizagem das rotinas ou os contactos que fui estabelecendo, designadamente com o Jornal do Fundão.
Confesso que, se hoje desempenhasse esse papel, viveria momentos de inquietação. Como garantir a sustentabilidade e a continuidade de um jornal regional? Pelos números a que acedi, o Correio do Minho terá, em média, cerca de 80 mil leitores.
Tem edição impressa e edição online. Aposta no multimédia e no crossmedia. E, sabiamente, desenvolveu uma estratégia de aproximação à Galiza. São sinais positivos, sem dúvida.
Mas os indicadores que recebemos das tendências de consumo e dos relatórios sobre a atividade dos órgãos de comunicação social são manifestos de incerteza e de angústia.
Ao difícil processo de digitalização, à concorrência feroz das plataformas globais, juntam-se agora as dificuldades criadas pelos chatbots de inteligência artificial no consumo de notícias. Processam a informação produzida por outros e interrompem o caminho do utilizador até aos sites que efetivamente produzem essa informação.
É mais um desafio para uma indústria já em crise. E é mais um alerta. Para os gestores dos órgãos de comunicação e para as entidades públicas nacionais e europeias sobre a necessidade de avaliar os efeitos profundamente negativos que este fenómeno pode gerar.
Em última análise, está em causa a diversidade de vozes, substituída pelo ruído polarizador. Está em causa o jornalismo de proximidade com as linguagens e narrativas próprias das culturas locais e regionais, que nenhum algoritmo saberá replicar.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Ao longo destes cem anos, o Correio do Minho confrontou-se com desafios de igual relevância e soube ultrapassá-los. Para isso, reinventou-se e ganhou novas dinâmicas, tal como a própria comunidade regional onde se insere.
Faço votos para que assim continue. Para que a singular história deste jornal se prolongue por muitas décadas e, quem sabe, por um novo centenário.
Porque um país só é verdadeiramente livre quando cada uma das suas regiões tem quem lhe conte a própria história. E o Minho, há cem anos, tem o seu Correio do Minho.
Parabéns pelos cem anos. E votos de sucesso para mais um século de existência.
Muito obrigado.