Meu caro campeão Carlos Lopes,
Começo por si. É com enorme orgulho e admiração que estou aqui ao seu lado, nesta justa e merecida homenagem.
Esta homenagem já teve várias consequências: fez-me recuar àquele ano magnífico em que, à uma da manhã, estava eu, um bocadinho mais novo – o Carlos Lopes também –, a assistir, juntamente com umas centenas de pessoas, à sua corrida. Se me permite, à nossa corrida. Porque a forma como correu, a sua coragem, a sua persistência, o seu talento, o seu esforço e, no final, a sua alegria, representava muito mais do que um atleta – representava esse atleta e representava Portugal. Muito obrigado por essa alegria que deu a um país inteiro.
Na manhã de 12 de agosto de 1984, em Los Angeles, noite em Portugal, venceu um extraordinário atleta. Mas venceu também, como disse há pouco, um país que descobria, através de si, uma nova confiança nas suas próprias capacidades.
O poeta Manuel Alegre soube traduzir esse sentimento em versos que permanecem na nossa memória coletiva:
“Era só Carlos Lopes que nós víamos,
e com ele ganhámos a corrida,
aquela madrugada e toda a vida.”
É difícil acrescentar alguma coisa mais. Porque, de facto, naquela manhã correu um homem e ganhou Portugal.
O nosso reconhecimento permanece tão vivo hoje como então.
Minhas Senhoras e meus Senhores,
Hoje vivemos um momento raro na vida do desporto português e, creio poder afirmá-lo, na vida do próprio País.
Pela primeira vez, encontram-se reunidos centenas de atletas olímpicos portugueses. O evento de hoje tem um profundo significado simbólico, porque nos permite homenagear aqueles que, ao longo de mais de um século, levaram o nome de Portugal aos Jogos Olímpicos e ajudaram a construir uma história plena de talento, perseverança e dedicação a Portugal.
Cada um percorreu um caminho diferente. Alguns alcançaram o pódio olímpico; outros regressaram com diplomas ou recordes pessoais. Mas todos partilharam a mesma responsabilidade: representar Portugal com honra e dignidade. É esse compromisso que hoje reconhecemos e que muito agradecemos.
Recordamos também aqueles que já não estão entre nós. A memória é prolongar a presença e é também uma forma de justiça para com aqueles que abriram caminho às gerações seguintes. Nenhuma comunidade constrói o futuro esquecendo o seu passado.
Este momento assume um significado ainda maior porque ocorre quando faltam exatamente dois anos para a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Los Angeles.
A história estabeleceu, aqui, uma feliz coincidência. Foi em Los Angeles que Portugal conquistou o seu primeiro título olímpico. É também para Los Angeles que partirá a próxima geração de atletas que honrarão Portugal.
Entre essas duas datas estende-se um entrelaçado de muitos anéis, uma cadeia de exemplos, de conquistas e de esperança.
Os Jogos Olímpicos continuam a representar uma das mais notáveis realizações da comunidade internacional.
Poucos acontecimentos conseguem reunir tantas nações em torno de valores comuns, ultrapassando diferenças de língua, de cultura, de religião ou de geografia.
Esse património ético que gostaríamos que fosse um marco civilizacional torna-se particularmente importante num tempo em que assistimos, vezes demais, ao crescimento da intolerância, da fragmentação e da desconfiança.
O desporto lembra-nos que competir não significa excluir; que procurar vencer nunca pode significar desrespeitar o adversário; e que a verdadeira excelência exige sempre respeito pelas regras, pelos outros e por nós próprios.
É por isso que o desporto constitui uma extraordinária escola de cidadania. Ensina disciplina, responsabilidade e perseverança.
Ensina que o talento só produz resultados quando acompanhado pelo trabalho. Ensina que nenhuma vitória é exclusivamente individual.
E lembra-nos que os valores do Fair Play não pertencem apenas às pistas, aos pavilhões ou às piscinas. Pertencem também à vida democrática e ao modo como escolhemos viver em sociedade.
É neste contexto que ganha especial significado a apresentação da nova Equipa Portugal.
Pela primeira vez, atletas olímpicos e paralímpicos apresentam-se sob uma identidade comum. É um dia particularmente feliz!
Mais do que uma opção de organização ou de imagem, esta decisão traduz convictamente uma ideia de País.
Afirma que a igualdade se concretiza em escolhas.
Afirma que a inclusão se realiza em práticas.
Afirma que Portugal reconhece o mérito, a coragem e o talento em todas as pessoas, sem exceção.
Esta é uma decisão que honra o desporto, honra o movimento olímpico, honra o movimento paralímpico e honra os valores da República Portuguesa.
Caras e Caros Atletas,
Dentro de dois anos, muitos de vós entrarão no Estádio Olímpico de Los Angeles. Desejo que todos vós o possais fazer.
Levarão convosco a bandeira nacional, a nossa bandeira, mas levarão igualmente a herança de quem vos antecedeu.
Levarão Carlos Lopes, Rosa Mota, Fernanda Ribeiro, Nélson Évora, Telma Monteiro, Patrícia Mamona, Fernando Pimenta, o Iúri, o António Martins, o Reinaldo – levam tantos, tantos nomes que aqui estão e que não cabem neste momento para citar a todos eles –, nomes que escreveram algumas das páginas mais inspiradoras do desporto português.
Assim se constrói uma nação: pela continuidade entre gerações, pela transmissão do exemplo e pela capacidade de transformar cada conquista numa responsabilidade acrescida.
Portugal orgulha-se profundamente de cada um e de todos vós.
Orgulha-se das vitórias alcançadas, mas orgulha-se, sobretudo, da forma como representam o nosso País.
Pela vossa dedicação.
Pela vossa humildade.
Pelo vosso espírito de superação.
E pelo exemplo que oferecem às gerações mais jovens.
Permitam-me concluir.
Os países afirmam-se pela solidez das suas instituições, pela qualidade da sua ciência, pela criatividade da sua cultura e pela força da sua economia.
Mas afirmam-se igualmente pelos valores que sabem transmitir e pelos exemplos que sabem reconhecer.
Hoje celebramos precisamente esses exemplos.
Celebramos mulheres e homens que colocaram Portugal acima dos seus interesses pessoais e que demonstraram que o mérito, o trabalho e a perseverança continuam a ser o caminho mais seguro para o nosso progresso coletivo.
Que saibamos preservar esse legado. Que continuemos a acreditar na força unificadora do desporto.
E que Portugal encontre, nesta nova Equipa Portugal, mais uma razão para olhar o futuro com confiança, unido pelos valores que melhor definem a nossa comunidade nacional.
Muito obrigado pela vossa atenção.