Começo por dizer-vos que as causas em que acreditamos valem a pena. Há trinta anos, eram poucos os que, olhando para este vale, imaginavam que hoje estaríamos aqui.
É evidente que foi preciso mais do que acreditar. Porém, se não acreditássemos que isto era possível, então nada mais seria possível.
Não seria possível o primeiro passo. Não teria sido possível desenhar este Museu. Não teria sido possível preservar a memória dos nossos antepassados. Não teria sido possível conhecer a verdadeira dimensão do povoamento deste vale, nem a mensagem que as mulheres e homens desse tempo deixaram inscrita na pedra, como um sinal e uma prova de vida. Não teria sido possível transformar as primeiras notícias sobre as gravuras, e as subsequentes, em argumento para a criação do parque arqueológico há 30 anos.
Mas 30 anos não são nada. Eu falo-vos de 20 mil anos de espera até hoje.
Por isso, olhar para este vale não é um pormenor – é um exercício de contemplação da Humanidade, como o é toda a cultura e todo o nosso trabalho com o património, seja imaterial ou edificado.
Trinta anos depois podemos falar deste museu e deste auditório como realidades. Podemos falar do afluxo de visitantes ao parque arqueológico, e da rede que ele estabelece com outros parques, como o de Siega Verde (que aproveito para cumprimentar na pessoa do Senhor Conselheiro de Cultura, Turismo e Desporto de Castilla y León). Podemos, enfim, falar do nome de Vila Nova de Foz Côa, que entrou no mapa das nossas referências culturais, no mapa das nossas viagens familiares, no mapa das belezas que todos sabem existir nesse vale.
É por isso que falar do Parque Arqueológico é referir um trabalho em construção permanente, porque acreditamos no papel da cultura como cimento das comunidades e dos territórios. Como um instrumento de valorização das nossas sociedades. Como um diálogo com o tempo e a sua passagem. Como uma memória de que não desistimos e que valorizamos, porque ela dá sentido à nossa história e à nossa existência enquanto seres humanos.
Mas não podemos esperar que esta visão e estes valores sobrevivam por si próprios.
É necessário que as nossas profissões de fé na cultura e no papel do Património sejam acompanhadas por investimentos razoáveis e pela solidariedade que faz do território uma rede de circulação, mobilidade, conhecimento, troca e partilha de valores.
Ou seja, para falarmos claro, não basta falarmos dos 30 anos de vida do parque arqueológico, nem dos 20 mil anos que contemplamos e nos contemplam, se não tivermos uma visão integrada do território e da coesão territorial.
A criação deste parque, desta fundação e deste Museu é a prova de que é possível, fora dos circuitos dominantes, manter instituições importantes e memoráveis. Isto fez-se com muito trabalho, insistência, e também com paixão, dedicação e criatividade. E só poderá ser prolongado com investimento, planeamento e aposta na educação e no talento e visão empresarial de quem vive no interior de Portugal.
Este investimento tem sentido e terá resultados. Faz parte de um desígnio nacional de combate ao isolamento e ao envelhecimento do território e das populações. Faz parte de uma missão de que estamos investidos: a de respeitar um monumento milenar e de o legar às gerações futuras. E faz parte, finalmente, desse futuro. Um futuro que não existe sem memória, sem lugares que a preservem e sem pessoas.
A classificação de Património Mundial da Unesco atribuída aos sítios de Arte Rupestre do Vale do Côa e de Siega Verde não é um selo inamovível: exige que a mereçamos – e que façamos dessa responsabilidade uma causa. Uma causa em que acreditamos.
Isso implica pensar não apenas na sua dimensão museológica, mas também humana e material. Na mobilidade. Na reabilitação e reanimação da ferrovia. No turismo do nosso tempo, cada vez mais atento à cultura e à natureza. Na rede escolar. Nos cuidados aos mais velhos. No futuro dos mais novos.
No caso português, e no caso do Douro, é necessário pensar também na ligação entre as duas classificações de Património Mundial que ligam o parque arqueológico do Vale do Côa ao Douro Vinhateiro. Os seus destinos estão ligados desde há muito, quando ainda não havia classificação de Património Mundial. Mas em comum havia dimensões elementares, como geografia, orografia, clima, botânica, agricultura, comércio e economia local, circulação de pessoas e bens. Muitas dessas condições mantêm-se e devem cimentar a relação que enriquecerá ambos os mapas.
Muitos dos que estão aqui hoje, nesta sala, já refletiram e publicaram as suas reflexões sobre o tema. É preciso dar corpo e realização a essas reflexões, porque o Douro e o Vale do Côa não são apenas paisagens para contemplar. São paisagens habitadas. Estão à nossa espera para serem vividas. Constituem realidades onde a Humanidade deixou o seu traço há milénios. Desde aí não pararam no tempo – e aguardam que saibamos estar à altura da sua herança.
Há 30 anos, Portugal tomou uma decisão histórica: preservar as gravuras do Côa e reconhecer neste território um património único, testemunho da presença e da criatividade humana ao longo de milhares de anos.
O Côa lembra-nos que o interior de Portugal não é um território do passado. É um território de memória, de identidade de conhecimento e de oportunidade.
Deixo um apelo: deem uma oportunidade ao interior.
Há 30 anos, preservámos o Côa. Agora temos de preservar e criar futuro para as pessoas que fazem do interior de Portugal a sua casa.
Não pode haver um país do litoral e um país do interior.
Há só um Portugal.