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Intervenção na Sessão de encerramento da 4.ª edição do Book 2.0

Quero começar por saudar a ideia deste encontro destinado a discutir e a prolongar a vida do livro e aproveitar a oportunidade para prestar a minha homenagem a um dos seus principais impulsionadores, Pedro Sobral, que infelizmente já não se encontra entre nós, e à APEL, que o organiza.

Saúdo também os editores e livreiros, autores, jornalistas, tradutores, mas também os responsáveis por políticas públicas relacionadas com a vida do livro. A vossa responsabilidade é enorme. Vivemos um tempo de mudanças decisivas que alteram a forma como somos leitores, como sois editores e autores – e como utilizamos as palavras com que fomos educados e que julgávamos a salvo.

Por isso, começaria verdadeiramente esta intervenção por lembrar uma evidência: a de que as coisas têm o seu tempo. Podemos enumerar algumas delas.

As carapaças de tartaruga em que foram gravados os primeiros caracteres da civilização chinesa. As tabuinhas de contabilidade e registo usadas na Mesopotâmia ou em Creta. O barro em que eram assinaladas as dinastias ou a pedra em que se inscreviam os nomes dos vivos e dos mortos.

O papiro em que os povos do Egito ou do Mediterrâneo nos deixaram as suas observações, as suas memórias ou o seu conhecimento. O pergaminho ainda mais maleável em que, da Antiguidade até à Idade Moderna, transitaram a poesia, os tratados de medicina ou de astronomia, as especulações de filosofia ou os cálculos matemáticos.

O papel, finalmente. A tinta, o pincel, o cálamo ou a pena. Os primeiros caracteres móveis que atravessaram a Rota da Seda e que, transformados e modernizados, permitiram que na Europa florescesse uma das mais notáveis invenções humanas, o livro como o fomos conhecendo ao longo do tempo até hoje, começando na tipografia a chumbo até ao telemóvel e ao tablet.

Perdoem-me este salto no tempo, atravessando séculos de arte tipográfica, de invenção e multiplicação de livros impressos cuja história ainda hoje discutimos e que ainda nos fascina e encanta – sobretudo aos editores que estão nesta sala.

Em cada um desses livros, na frágil composição dos nossos cancioneiros, na impressão de Os Lusíadas, em 1572, nos poucos exemplares do único livro que Fernando Pessoa publicou em vida, ou na atual circulação de livros digitais – em cada um desses livros, dizia, está uma parte da história da nossa humanidade. Da nossa cultura. Da nossa memória.

É por isso que dizemos que as coisas têm o seu tempo. E que cada livro teve o seu tempo. E que cada forma de dar vida a um livro marcou um determinado tempo.

Quando hoje nos reunimos em torno deste lema (“De regresso aos livros, de regresso às origens”), é do tempo que falamos. Ora, o tempo é a única coisa inegociável nas nossas vidas.

O tempo e a passagem do tempo são bens inegociáveis. Passam e deixam uma marca. Os livros deixaram a sua marca na história da humanidade e são um dos seus sinais, uma das suas formas de representação. Não podemos voltar atrás e eliminar o livro e a força transformadora que ele trouxe à nossa cultura, à nossa forma de entender o mundo.

Na verdade, tudo se traduz em livros.

A música acompanha-nos desde o início dos tempos, mas é nos livros que a sua notação se encontra registada. A mesma coisa acontece com a aritmética, a geometria ou a álgebra, a curiosidade em geral, o conhecimento da Terra, o diálogo com o invisível, a arte de construir a casa dos homens ou as catedrais, as disputas sobre a natureza humana e as formas de organização política, sobre a economia e a justiça.

As coisas têm o seu tempo, mas os livros têm a marca do tempo da nossa humanidade.

Talvez seja estranho, para muitos de nós, que se evoque o “regresso ao essencial”, o “voltar ao básico”, como está inscrito no programa deste encontro. Porque o livro e a leitura não estão nas origens. Nas origens não estava a leitura e havia poucas palavras.

A leitura é uma construção humana impulsionada ou fixada em momentos singulares da nossa história. Esses momentos singulares são Atenas e Alexandria, Jerusalém e Santa Cruz de Coimbra. São a obrigação da leitura consignada na Regra de São Bento ou as bibliotecas criadas em Roma e em Fez, em Chinguetti (na Mauritânia), ou em lugares míticos da Suméria e da Assíria, em Pérgamo ou Verona – ou na do Vaticano, em cujo livro de honra está o nome de D. José Tolentino Mendonça.

Este percurso foi longo, lento e trabalhoso. Foi ele, repito, que construiu a nossa humanidade atual.

Foram a edição de papel impresso e a criação de livrarias, a circulação de livros, a sua leitura e a discussão muitas vezes violenta, que permitiram que florescesse a liberdade da discussão política e filosófica. Sem ela não poderíamos falar de democracias liberais, de direitos humanos, de investigação científica, de liberdade em geral ou de progresso no conhecimento.

A imprensa e o acesso aos livros fizeram aparecer ideias novas acerca da história, acerca da sociedade e acerca do que significava viver com os outros. Mudaram a forma como as pessoas pensavam.

Foram a edição de livros e a criação de livrarias que fizeram dos séculos XVIII e XIX os séculos da alfabetização; eles permitiram que o século XX tivesse sido, para nossa felicidade, o século do livro e da leitura, o século em que inventámos o conceito de democratização do acesso ao livro e às bibliotecas. Não só a liberdade, mas o direito ao livro e à leitura. E, em consequência, o direito a expor novas ideias, a contradizer as certezas adquiridas e a imaginar mais mundos possíveis.

Mas este otimismo não deve fazer-nos esquecer os desafios, profundos ou subtis, já lançados pelo século XXI, cujo primeiro quartel foi marcado por transformações radicais na alfabetização e nos modos de ler.

Se o desafio do século XX foi o da democratização do livro e da leitura, mas também o do fim de quase todas as formas de censura, o século XXI coloca problemas que não podem ser ignorados pelos agentes desse imenso mercado do livro, representados nesta sala.

Esses problemas não devem pôr em causa o nosso otimismo – mas devem alertar-nos para desafios novos e poderosos. Os estudos PISA recentemente conhecidos disponibilizam dados para identificar alguns desses problemas, nomeadamente a diminuição da taxa de literacia bem como, em muitos países desenvolvidos, o abandono da leitura como fonte de prazer ou como atividade cultural dominante. E, com o abandono da leitura, em geral, vêm o declínio das competências cognitivas, o declínio da literacia em ciência ou em matemática.

As coisas têm o seu tempo. E este tempo pode ser, como dizem algumas vozes, o tempo de um certo conformismo diante desses números pouco agradáveis.

Pertenço a uma geração para a qual o livro não é apenas uma fonte de conhecimento – é também uma fonte de prazer, uma fonte de alegria, de partilha, de comunicação e de vizinhança com os outros.

Nesta matéria, Portugal enfrenta agora a revelação desse declínio, que está sustentado em números, em estudos e em previsões. Nesta matéria não podemos conformar-nos, nem desistir dos combates pela leitura e, mais do que isso, pela qualidade da leitura, o que são coisas diferentes.

Os dados ontem divulgados sobre o número de livros vendidos em 2025 – perto de 15 Milhões – vão na trajetória certa. Mas há margem para melhorar. Temos de melhorar, também na qualidade da leitura.

É necessário regressar ao livro. Regressar ao pensamento profundo. Talvez porque nos encontremos na iminência de perder o livro e de desperdiçar o pensamento profundo. Estou a usar as vossas palavras. Mas não basta dizê-las. É necessário analisar as suas implicações.

Sabemos que a leitura está associada a uma série de benefícios cognitivos, além de possibilitar melhor pensamento analítico, mais criatividade, mais comunicação real e verdadeira. Precisamos disso. E precisamos de reabilitar o velho conceito de qualidade da leitura. Devo, talvez por isso, recordar as palavras de Virginia Woolf:

“Como leitores, temos as nossas responsabilidades e a nossa importância. Os padrões que elevamos e as avaliações que fazemos ascendem e integram a atmosfera que os escritores respiram enquanto trabalham.”

Ou seja, a sabedoria controversa de Virginia Woolf pede-nos um exercício original: o de elevar os padrões de leitura. O de melhorar a nossa condição de leitores. Convido-vos a refletir sobre esse exercício, porque ele tem a ver com os nossos hábitos diários, com a nossa exigência na escola, na edição e no aconselhamento de livros.

Melhores leitores, mais exigentes, mais educados, mais informados, mais severos, mais despertos para a grandeza da literatura e da qualidade dos livros, menos distraídos pelos vídeos das redes sociais, produziriam melhores autores e, novamente, melhores leitores e mais leitores. É esse o desafio de Virginia Woolf, como é o desafio dos tempos que correm.

Esse é um trabalho que a escola não pode abandonar. Falais, neste encontro, de “regresso ao livro”. Mas não haverá regresso ao livro sem, antes, se regressar à leitura. Ao prazer e à exigência de ler bons livros que não sejam produto do algoritmo da banalidade. E não haverá pensamento profundo se não houver uma educação para a profundidade.

Na verdade, falais de “regresso ao livro” e “ao pensamento profundo” porque essas coisas estão em crise. Há anos, eram “os intelectuais” ou os profissionais das bibliotecas que se preocupavam com este declínio. A situação é tão exigente que foram algumas das principais publicações globais sobre economia e política a consagrar bastante espaço ao assunto. Precisamente porque são também o futuro da economia e o futuro das nossas sociedades que estão em risco. Porquê?

Porque o resultado dessa crise da leitura e da literacia não é apenas a perda de informação e inteligência, mas o empobrecimento da nossa experiência como seres humanos, ou seja, a perda de interesse pelo trabalho, sobretudo pelo trabalho criativo, e a perda de entusiasmo pela vida em sociedade.

Acrescento ainda: a perda de interesse pela história, que é um pecado das sociedades que desprezam as suas raízes e as páginas da sua genealogia.

Há um outro desafio para o nosso tempo: usamos cada vez menos palavras. O que significa que temos cada vez menos capacidade de entender a complexidade do mundo. Aceitamos cada vez menos o confronto com ideias que nos contrariam, o que significa que estamos mais conformistas e corremos o risco da indiferença. Estudos internacionais dizem-nos, com clareza e preocupação, que os estudantes universitários de hoje têm dificuldade em ler livros que, em 1940 – estou a citar George Orwell –, eram lidos por crianças “entre 12-15 anos e pertenciam à classe operária, a mais pobre da comunidade”.

Volto atrás: a solução não está em publicar livros entediantes na sua pobreza, mas em criar leitores que possam voltar a ler os mestres e os grandes livros que construíram a nossa civilização, a nossa memória e algumas das nossas interrogações e inquietações.

Abre amanhã a Festa do Livro em Belém, para a qual vos convido e onde espero ver-vos. Distribuiremos um pequeno marcador de livros em que está impressa uma frase maravilhosa de Agustina Bessa-Luís:

“Quando aprendi a ler, o mundo fez-se luz e passei a compreender tudo.”

Gostava que essa frase estivesse no coração de cada leitor, mas fosse também um lema dessa educação para a complexidade, ou para o pensamento profundo, ou para a simples arte de ler sem ter perdido as palavras que nos ensinaram a caminhar sobre a Terra.

Como sabemos, ler, por si só, não nos faz melhores pessoas. A leitura não tem a ver com a bondade nem com os bons sentimentos. Mas mostra-nos as escolhas decisivas. Abre caminhos onde havia escuridão. Pode ajudar-nos a sermos mais livres. Ensina-nos as palavras que nos explicam o mundo. É um antídoto contra a exclusão e a ignorância, o mais perigoso dos vírus em democracia.

Este não é um retrato pessimista, nem eu sou um pessimista. Longe disso. Acredito que uma nação que lê é mais poderosa e está mais bem preparada para os desafios do tempo. Acredito que uma nação que lê promove a inteligência humana e não fica, passivamente, à espera dos benefícios e facilidades da inteligência artificial. Acredito que uma nação a ler, e a ler bons livros, é mais resistente às ventanias do populismo, da desigualdade, da ignorância, da injustiça e do esquecimento. Esse é um desafio para os próximos anos.

Um desafio que não se destina apenas a leitores impenitentes e já cativados — mas aos que ainda não leem ou já deixaram de ler, aos que não sabem ler ou aos que se esqueceram de ler. Quarenta anos depois da criação da Rede de Leitura Pública é necessário um novo impulso nas políticas de educação para a leitura e para o enriquecimento cultural. Isso fará de nós uma nação que lê. É um trabalho que diz respeito à escola em primeiro lugar, mas também à família e a cada um de nós, portugueses.

Permitam-me uma derradeira palavra para, como Presidente da República, lembrar a necessidade de valorizar a Língua Portuguesa. Essa palavra é simples: amor. Cada vez mais, nas televisões e na política, no discurso dos economistas e dos gestores, dos jovens e das figuras públicas, perpassa um sentimento de desamor pela Língua Portuguesa. Também esse desleixo, que é por vezes tão visível no espaço público, nos devia ocupar.

A Língua Portuguesa, que devíamos escrever com maiúsculas, é um bem essencial da nossa vida em sociedade. O conhecimento das línguas francas e, como é o caso deste encontro, de receber os nossos visitantes estrangeiros, não nos dispensa de considerar a grandeza e a importância da nossa língua franca principal, a Língua Portuguesa.

Ela transporta a nossa memória e as nossas travessias, incorporando novidades e consagrando a nossa passagem pelo mundo. Absorveu outras palavras, que fez suas. Sobreviveu, mantendo as suas raízes. Modernizou-se e adaptou-se. Sobrevive ainda em vários continentes, como um corpo vivo. Produziu poesia que nos comove e narradores que nos falam do passado e dos dias de hoje. De certa maneira, é a nossa casa.

É uma pena perder as suas palavras e usá-las cada vez menos. As palavras dos nossos poetas e dos nossos geógrafos, mas também dos nossos campos e das nossas cidades, dos nossos dicionários e dos nossos sonhos.

É nessa Língua que devemos reinventar aquilo que em Ponta Delgada, no 10 de junho, designei como “as palavras do meio”, as palavras que são lugar de encontro e de comunhão, de entendimento e de futuro – e de que estamos sempre necessitados.

Todos os anos, a 5 de maio, assinalamos o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Mas não faz sentido que seja apenas uma data menor no calendário das nossas comemorações. Nem faz sentido que passemos o ano a esquecer a sua riqueza e a esquecer as suas palavras para, nesse dia, invocarmos “a língua de Camões e de Pessoa”, a “língua de Vieira e de Cesário Verde”. Essa é a língua de uma nação que lê. Que não ignora nem despreza as outras línguas, mas que sabe onde fica a sua casa. A isso chama-se amor.

E gostava de terminar, precisamente, com esta palavra.

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