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Intervenção na Sessão solene de abertura do Ano Académico 2026/27 da Universidade de Lisboa

Sabemos que a mudança é inerente à vida e às sociedades. A mudança está permanentemente connosco. No entanto, há épocas em que a mudança se sente mais. A nossa época é, provavelmente, um desses momentos. Mudam as formas como aprendemos. Mudam as profissões que conhecemos. Mudam as tecnologias que usamos. Mudam as relações entre as pessoas, entre as sociedades e entre os Estados. E mudam também as nossas expectativas em relação à Educação.

É neste tempo de mudança que começa hoje mais um ano académico na Universidade de Lisboa. Uma Universidade que, como todas as grandes instituições do conhecimento, não se limita a acompanhar o seu tempo. Prepara o Futuro.

Estamos reunidos aqui hoje, na Universidade de Lisboa, para ouvir as vozes desta comunidade de professores, investigadores, estudantes e funcionários. Mas este momento ultrapassa estas paredes. Falo também para todo o sistema de ensino superior português. Porque os desafios que aqui tratamos são comuns a todos e as respostas que construirmos terão de ser também de todos.

A geração que hoje chega à universidade, mas também a que se vai formar neste ano lectivo, vai viver num mundo diferente daquele que conhecemos. Um mundo marcado por uma profunda transformação tecnológica, pelo impacto da inteligência artificial, por novos modos de produzir e distribuir conhecimento. E também por um cenário internacional instável, marcado pelo regresso da guerra e por disputas que julgávamos ultrapassadas.

Camões escreveu, há mais de quinhentos anos: «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.» José Mário Branco deu-lhe música. E poucas frases traduzem tão bem o tempo que hoje vivemos.

Neste mundo em constante mudança, podemos ser tentados a procurar respostas rápidas. Mas uma Universidade não existe para dar respostas rápidas. Existe para fazer perguntas difíceis.

Para questionar o que parece evidente. Para testar aquilo que julgamos saber. Para confrontar ideias. Para produzir conhecimento. Para formar pessoas capazes de compreender a complexidade antes de decidirmos sobre ela.

É por isso que uma Universidade é muito mais do que um lugar onde se obtém um grau académico.

É uma comunidade. Uma comunidade que partilha uma responsabilidade que ultrapassa as suas próprias vidas. A responsabilidade de produzir e transmitir conhecimento para que uma sociedade possa encarar, com serenidade, os desafios do futuro.

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

Quero aproveitar este momento para vos falar dos resultados do PISA 2025. Resultados que, também, acompanham aqueles que este ano começam o caminho que trilharão no ensino superior.

Deixem-me começar pelo que me parece essencial: não estamos sozinhos.

A deterioração dos resultados em Leitura e Matemática atravessa a maioria dos países da OCDE. Este não é um problema exclusivamente português, é um padrão geracional e estrutural que estava a formar-se antes da pandemia e que a pandemia agravou, mas não criou.

Digo isto, mas não para diminuir a preocupação. Digo isto, para evitar o debate errado.

Porque o debate errado já começou. A conversa vai fazer-se sobre disciplina versus indisciplina, sobre exames versus não exames, sobre o regresso ao passado versus o presente que não presta. E esse debate não vai mudar nada. Vai consumir energia que devia ir para as perguntas e respostas certas.

Confesso que tenho uma inquietação particular. Quando a discussão pública sobre educação se organiza em torno de dois campos que se acusam mutuamente de todos os males, os alunos ficam exatamente onde estão. A política desgasta-se. E o problema permanece.

Precisamos de uma voz diferente. Uma voz que critique o que está mal, e há muito que está mal, mas que construa a alternativa, não a nostalgia.

Os resultados de 2025 regressaram aos níveis de 2006, revertendo completamente os ganhos das últimas duas décadas. É um recuo sério que merece reflexão séria e ação. Mas os dados dizem também outra coisa, que raramente se cita: os jovens portugueses são dos mais curiosos e mais persistentes da OCDE. Pois, apenas 20% consideram que a escola foi uma perda de tempo.

O problema não é a falta de vontade de aprender. O problema está no que se aprende e como se aprende e na desigualdade socioeconómica que continua a pesar mais em Portugal do que noutros países da OCDE.

A resposta tem de ser dada por perguntas que tomem em consideração quem somos e o que queremos ser como país, mas também que assumam que todas as gerações são diferentes, e ainda bem que o são.

Mas fazer novas perguntas, não nos deve distrair da necessidade de nos organizarmos melhor para implementar as respostas, fazê-lo com consistência, com financiamento e monitorização da sua alocação e, acima de tudo, vontade política de longo prazo. Esse é o debate que precisamos de ter.

O que me traz à questão que mais me preocupa quando penso no ensino superior.

Há algumas semanas, um dado circulou nos meios de comunicação social e foi rapidamente esquecido: apenas 3% dos estudantes colocados no ensino superior eram beneficiários do escalão “A” da acção social, o apoio destinado às famílias com menores rendimentos. Três por cento.

Os estudantes de famílias com menores rendimentos continuam profundamente sub-representados no ensino superior. A universidade deve ser um elevador social. Mas um elevador que só apanha 3% de quem precisa de subir não é um verdadeiro elevador. Assemelha-se mais a uma escada apenas para quem já tem força para a subir.

A igualdade de oportunidades não começa no ensino superior. Começa muito antes, nos diferentes percursos escolares. É aí que muitas vezes se decide se uma criança terá condições para descobrir o seu talento, desenvolver a sua curiosidade e imaginar para si própria um futuro diferente daquele que as circunstâncias em que nasceu poderiam fazer prever.

Há jovens no interior do país que percorrem longas distâncias para chegar às oportunidades que procuram. Há jovens nas periferias das nossas cidades que, apesar de viverem perto de universidades de excelência, continuam a sentir que esses lugares não lhes pertencem.

Não podemos aceitar que o lugar onde se nasce determine o lugar onde se pode chegar.

Quero agora dizer uma palavra particular aos estudantes que hoje iniciam ou retomam o seu percurso.

Muitos de vós chegaram aqui depois de um ano difícil. Com falhas nos exames que não foram vossas. Com transições que não correram como deviam. E chegaram na mesma. Isso não é um dado menor. É uma vitória pessoal. E é também a demonstração da resiliência de um sistema que, com todas as suas imperfeições, vos acompanhou até aqui.

Estudar na universidade é uma realização pessoal e profissional. Mas é também outra coisa, é uma forma de ajudar a realizar Portugal.

Há um conjunto de áreas onde Portugal tem capacidade e ambição de liderar no mundo: a economia azul e os recursos do oceano, as energias limpas, a saúde e as ciências da vida, a economia criativa e cultural, a tecnologia e a inteligência artificial, a mobilidade autónoma, o espaço, a sustentabilidade e os sistemas alimentares. São domínios que precisam de contributos de todas as áreas, das letras à engenharia, das belas-artes à arquitectura, da medicina à farmácia, do direito à economia, da agronomia às ciências veterinárias, da psicologia às ciências da educação, das ciências sociais à geografia, da motricidade humana às ciências exactas.

Não há área do conhecimento que não tenha lugar neste projecto. Não há licenciatura que não possa contribuir para o Portugal que queremos construir.

O futuro não é apenas aquilo que nos acontece. É aquilo que somos capazes de construir coletivamente.

Não vos cabe apenas adaptar-vos ao mundo que encontram. Cabe-vos também transformá-lo.

Num mundo em que podemos obter uma resposta em segundos, a vossa vantagem não será saber tudo.

Será saber o que perguntar. Onde procurar. Em quem confiar. E como distinguir conhecimento de aparência de conhecimento.

Porque há uma coisa que gostaria particularmente de vos dizer: não tenham medo de não saber. Tenham medo, isso sim, de deixar de querer saber.

A Inteligência Artificial pode responder. Mas não pode querer. Não pode questionar por vós. Não pode decidir o que é importante. Não pode sentir a responsabilidade do que faz com o conhecimento que tem.

Isso é irredutivelmente vosso.

É por isso que estudar continua a valer a pena. Investigar continua a valer a pena. Ler continua a valer a pena. Ouvir quem pensa diferente continua a valer a pena. Ter formação superior continua a valer muito a pena.

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

José Saramago nunca iniciou um ano lectivo numa universidade. Por falta de meios da família, saiu do liceu e passou para uma escola de ensino profissional e aprendeu a ser serralheiro mecânico. Formou-se nas noites da Biblioteca do Palácio Galveias, em Lisboa, não muito longe do local onde hoje nos encontramos.

Saramago formou-se «sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender». Foi assim que nasceu o único Nobel da Literatura português.

E quando, já com o prémio Nobel, recebeu um grau honoris causa numa universidade brasileira, disse algo que não consigo esquecer: «O serralheiro mecânico que fui pergunta-se tantas vezes se vós, estudantes, sereis realmente conscientes do privilégio que significa poderdes passar uma parte da vossa vida na universidade.»

Aqui estão vocês. E aqui está a pergunta de Saramago. Ele deixou-nos também a resposta: «Reivindiquemos os nossos direitos, todos os dias, aqui e onde quer que seja, mas reivindiquemos também, para os assumir completamente, os nossos deveres.»

É essa responsabilidade que hoje vos quero deixar.

À Universidade de Lisboa, a responsabilidade de continuar a ser um espaço de liberdade, de ciência, de pensamento e de conhecimento.

Aos professores e investigadores, a responsabilidade e o direito de continuarem a ensinar e investigar com autonomia, reconhecimento e dignidade.

Aos estudantes, a responsabilidade de não desperdiçarem a oportunidade que aqui têm e de o colocarem ao serviço dos outros e do país.

E a todos nós, enquanto sociedade, a responsabilidade de garantir que a Educação continua a ser aquilo que sempre deve ser: um instrumento de liberdade, de igualdade e de futuro.

E também um instrumento de valorização profissional e pessoal.
Para isso, tem de remunerar adequadamente os seus jovens qualificados. Melhor qualificação tem, obrigatoriamente, significar melhor remuneração.

O passado recente mostrou que temos das gerações mais qualificadas, mas muitos emigram porque o país falha na retribuição, nos salários que não acompanham a evolução das qualificações.

Portugal será mais forte quando o vosso conhecimento e competências for aplicado aqui, em quem aposta no vosso futuro.

Portugal mais forte quando for capaz de transformar conhecimento em liberdade, liberdade em oportunidade, oportunidade em progresso e progresso em melhoria efetiva das condições de vida.

Que este seja, para cada um de vós, um ano de descoberta de curiosidade ilimitada. Para esta Universidade, um ano de conhecimento.

E para Portugal, mais um passo na construção de uma sociedade onde nascer, estudar e sonhar nunca determinem até onde cada pessoa pode chegar.

Muito obrigado.