É com verdadeiro gosto que participo neste evento, que inaugura o 8.º Congresso dos Contabilistas Certificados.
Como Presidente da República é a primeira vez que tenho a oportunidade de estar junto dos contabilistas certificados portugueses.
Junto de profissionais que contribuem para a solidez das nossas empresas e para a credibilidade do país perante os mercados e os parceiros internacionais.
E ao participar nesta casa, que por várias vezes acolheu grandes momentos desta profissão, é também recordar o quanto uma classe profissional pode crescer, amadurecer e projetar o futuro, afirmando-se como um dos pilares da vida económica de Portugal.
É nesse sentido que interpreto o mote particularmente feliz do vosso Congresso: Contabilista 3.0 — agente de confiança, de governança e de inovação.
Minhas Senhoras e meus Senhores,
É indiscutível o caminho percorrido por esta profissão desde que, em 1759, o Marquês de Pombal fundou em Lisboa a Aula do Comércio, destinada a formar os guarda-livros de uma economia que se pretendia reconstruir depois do terramoto.
Seguiram-se séculos de amadurecimento institucional, até à consagração da Ordem dos Contabilistas Certificados.
Hoje tem cerca de setenta mil profissionais inscritos, é uma das maiores associações públicas profissionais do país e continua a crescer, atraindo jovens para a profissão.
A sua atividade e o quadro ético onde se desenvolve, tem um percurso que atravessa mudanças de regime, crises económicas, a adesão à União Europeia e transformações profundas na própria natureza do trabalho.
Soube, em cada uma dessas etapas, reinventar-se sem nunca abdicar do essencial. Do rigor e da informação fidedigna que serve de base às decisões económicas do país.
É também por isso, que a profissão de contabilista sempre esteve intimamente ligada aos grandes momentos da vida coletiva portuguesa. Foi assim na reconstrução pombalina de Lisboa. Foi assim nas sucessivas reformas fiscais do século XX. E é assim hoje, quando o país enfrenta o desafio de modernizar a sua Administração, de simplificar a relação entre o Estado e as empresas e de reforçar a confiança dos investidores na solidez das nossas instituições económicas.
Em todos estes momentos, o contabilista certificado esteve presente, de forma discreta, mas indispensável, ao lado de quem decide. Muito mais do que guarda-livros, afirma-se como guardião da confiança e da credibilidade.
Minhas Senhoras e meus Senhores,
É justamente por tudo isto que entendo que a profissão de contabilista certificado deve ter um merecido reconhecimento público.
Numa economia como a nossa, composta maioritariamente por pequenas e médias empresas, o contabilista certificado é o interlocutor técnico de confiança que o empresário tem ao seu lado quando decide investir, contratar, financiar-se ou reestruturar o negócio.
Esse papel de proximidade, construído ao longo de décadas, é um dos ativos mais valiosos da economia portuguesa.
Numa altura em que se fala tanto, e bem, de simplificação administrativa e de desburocratização, quero reconhecer aqui o papel que os contabilistas certificados têm desempenhado como interlocutores fundamentais do Estado nesse esforço de modernização.
Sem o vosso contributo técnico, muitas das reformas simplificadoras que a Administração Pública tem procurado implementar não seriam sequer exequíveis.
Porque o contabilista certificado constitui a ponte diária entre a lei fiscal, de crescente complexidade e anualmente alterada pelo Orçamento do Estado, e a vida concreta de milhares de pequenos e médios empresários espalhados pelo país.
Das grandes cidades ao interior mais despovoado, onde tantas vezes é o contabilista certificado quem apoia os que mantêm viva a atividade económica local.Mas não é apenas nas empresas que este papel ganha relevância. É também nas entidades públicas, independentemente da sua dimensão.
É disso exemplo o protocolo de cooperação recentemente assinado com a Associação Nacional de Freguesias, que permitirá às freguesias o acesso a pareceres e a conteúdos técnicos da Ordem. É, sem dúvida, um importante contributo para a valorização do contabilista certificado público e para a qualificação do relato financeiro, fiscal e contabilístico destas autarquias.
Minhas Senhoras e meus Senhores,
O mote deste Congresso, Contabilista 3.0 — agente de confiança, de governança e de inovação, é igualmente certeiro porque traduz bem o presente. O momento de transformação acelerada que atravessamos.
Para alcançar o desiderato do Contabilista 3.0, em particular, um profissional mais liberto de tarefas repetitivas, para se poder focar no crescimento dos seus clientes, é necessário, também, ter no Estado um aliado.
Designadamente ao garantir estabilidade da legislação fiscal, permitindo que as mudanças operadas - ainda que incontornáveis - possam ser planeadas, preparadas e debatidas com tempo suficiente para serem executadas sem percalços; um aliado, na celeridade na tomada de decisões administrativas e judiciais; e, finalmente, um aliado, na redução de burocracia, simplificação e modernização de procedimentos. Só assim, as ferramentas informáticas poderão ter um verdadeiro impacto na prestação do Contabilista 3.0.
Na verdade, a desmaterialização e a digitalização de processos, a integração de sistemas inteligentes e de análise preditiva já fazem parte do vosso quotidiano profissional. E é evidente, esta mudança, como sucede em tantas outras profissões, coloca desafios técnicos de grande exigência. Mas coloca também, e sobretudo, desafios éticos.
Refiro-me, muito em particular, ao lugar que a inteligência artificial generativa está a ocupar no exercício da vossa profissão. No meu entender, nenhum sistema, por mais sofisticado que seja, substitui o julgamento profissional, a independência de espírito e a integridade que sempre distinguiram o contabilista certificado.
Nenhum algoritmo assume responsabilidades. A responsabilidade ética pertence, e continuará a pertencer, ao ser humano. A capacidade de gerir dilemas éticos com serenidade, de comunicar com empatia, de resistir a pressões indevidas, de manter a lucidez em contextos de grande complexidade, tudo isso, é hoje tão relevante quanto o domínio técnico das normas e dos sistemas. Num tempo em que tudo se acelera, a maturidade e o discernimento ético são condições de confiança pública.
Acrescento uma outra dimensão que me parece merecer particular atenção: a da sustentabilidade e da responsabilidade social das organizações. O relato não financeiro e os critérios ambientais, sociais e de governação ganham hoje um peso crescente na forma como se avalia o verdadeiro valor de uma empresa. Também aqui o contabilista certificado é chamado a desempenhar um papel de charneira ao ajudar as empresas, sobretudo as mais pequenas, a transformar exigências em oportunidades reais de eficiência, de poupança e de melhoria da sua reputação.
É, por tudo isto, que saúdo o papel da Ordem dos Contabilistas Certificados na regulação, na formação contínua e na dignificação desta profissão.
Permitam-me uma merecida palavra de reconhecimento à Senhora Bastonária Paula Franco. A sua liderança, ao longo dos últimos oito anos, tem sido essencial para a forma como a sociedade portuguesa encara a profissão de contabilista certificado.
Têm sido igualmente essenciais para fazer da Ordem dos Contabilistas Certificados uma Ordem forte, exigente e atenta ao seu tempo é, também ela, uma garantia de qualidade institucional para o país.
Minhas Senhoras e meus Senhores,
Num mundo em que praticamente nenhuma profissão está imune à mudança, os contabilistas certificados portugueses têm a oportunidade histórica de mostrar que é possível conciliar inovação tecnológica com responsabilidade ética e rigor técnico com sensibilidade.
É essa, no fundo, a essência do Contabilista 3.0 que ao longo destes dias vão discutir.
Ontem celebrou-se o Dia Nacional do Contabilista Certificado. Cumpre-me, por isso, dar-vos os parabéns. Pela evocação da data mas, sobretudo, pelo caminho percorrido.
Parabéns por terem afastado desta profissão o retrato de Bernardo Soares, o guarda-livros heterónimo de Fernando Pessoa, confinado ao seu pequeno mundo na Rua dos Douradores.
O retrato do profissional isolado, quase invisível na sua repartição, felizmente, já não corresponde à realidade que aqui celebramos. Hoje, o Livro do Desassossego do contabilista certificado é outro. É o desassossego de quem quer avançar, ir mais longe, participar com conhecimento e visão para que as empresas portuguesas ganhem mundo. É o desassossego do profissional essencial num país que produz, que quer trabalhar, que quer exportar e crescer e que precisa, para isso, de parceiros técnicos sólidos, éticos e atualizados. Um desassossego que já não é melancolia. É ambição.
Minhas Senhoras e meus Senhores,
Termino como comecei: com uma palavra de reconhecimento. Portugal precisa de profissionais com as vossas características. Discretos. Rigorosos. Atualizados. E, sobretudo, dignos da confiança que lhes é depositada todos os dias por milhares de empresários e de famílias portuguesas. Continuem a trabalhar com essa exigência e com esse sentido de missão. Porque, ao fazê-lo, continuam também a construir um país mais forte, mais transparente e mais preparado para o futuro.
Continuem, inspirados pelo hino à perseverança de Jorge Palma, um dos grandes poetas da nossa música e da nossa sensibilidade, que ontem perdemos:
«Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar»
Parabéns à Ordem dos Contabilistas Certificados.
Parabéns a todos os contabilistas certificados portugueses.
Muito obrigado.