Cadetes-alunos que hoje recebeis a Espada de Oficial, momento que marca o vosso ingresso oficial no Quadro Permanente do Exército,
Alunos oriundos dos Países Amigos de Língua Oficial Portuguesa que frequentam a Academia Militar, assinalo também o forte compromisso de Portugal no fortalecimento dos laços de cooperação militar com os Países Amigos de Língua Oficial Portuguesa.
Há momentos que passam pela vida dos homens.
E há momentos que passam para a História das suas vidas.
Este é um desses momentos.
Daqui a muitos anos, quando o peso da responsabilidade substituir a emoção deste dia, quando o comando de mulheres e homens se transformar na vossa missão diária, quando os desafios forem maiores e as decisões mais difíceis, recordarão este instante.
Recordarão o dia em que receberam uma espada.
Mas, sobretudo, recordarão o significado daquilo que ela representa.
Porque esta espada não é apenas metal forjado.
Não é apenas tradição.
Não é apenas um símbolo militar.
Ela representa uma herança que atravessou séculos, conduzida por sucessivas gerações de oficiais que, antes de nós, aceitaram colocar o interesse da Pátria acima do interesse próprio.
Hoje, essa herança passa para as vossas mãos.
E com ela passa uma responsabilidade extraordinária.
Ao longo da História, os grandes líderes militares compreenderam uma verdade simples:
A liderança não reside na autoridade. A liderança conquista-se diariamente.
O Marechal William Slim, um dos mais respeitados comandantes do século XX, dizia que" A liderança são apenas palavras, a menos que seja o espírito dos homens elevado por outros homens". Essa visão continua atual porque a essência do comando permanece inalterada, independentemente da tecnologia ou da época.
Um Oficial não lidera porque possui uma espada.
Não lidera porque usa galões.
Não lidera porque ocupa uma posição hierárquica.
Lidera porque inspira confiança.
Porque serve pelo exemplo.
Porque permanece firme quando outros esmorecem.
Porque avança quando outros hesitam.
Porque assume a responsabilidade quando seria mais fácil procurar culpados.
Os soldados aceitarão as vossas ordens.
Mas apenas seguirão genuinamente a vossa liderança se reconhecerem em vós competência, carácter e coragem.
E não existe prova mais exigente do carácter de um Oficial do que a responsabilidade de decidir sobre a vida daqueles que lhe foram confiados.
Hoje culmina uma longa fase da vossa formação.
Anos de estudo.
Anos de treino.
Anos de disciplina.
Anos de sacrifício.
Anos em que aprenderam a comandar.
Mas permitam-me uma reflexão.
Talvez a maior lição que levam desta Academia Militar não seja só a arte de comandar.
Talvez seja a arte de servir.
Porque a essência da condição militar nunca foi o poder.
Sempre foi o serviço.
O General George C. Marshall, “verdadeiro arquiteto da vitória” aliada na Segunda Guerra Mundial, afirmava que o mais elevado propósito do Oficial consiste em colocar os interesses da Nação acima das suas conveniências pessoais.
É por isso que hoje não recebem um privilégio. Recebem uma missão. Não recebem um direito. Recebem um dever.
Não recebem uma distinção. Recebem um compromisso. O compromisso de servir Portugal. Todos os dias. Em todas as circunstâncias. Mesmo quando ninguém estiver a observar.
Portugal espera muito de vós.
E tem o direito de esperar.
Porque uma Nação que vos confia a sua defesa está a confiar-vos muito mais do que armamento, equipamentos ou instalações militares. Está a confiar-vos o seu futuro. Está a confiar-vos a sua liberdade. Está a confiar-vos a sua soberania. Está a confiar-vos as suas filhas e os seus filhos que um dia servirão sob o vosso comando.
Num mundo marcado pela incerteza, pelo conflito e pela acelerada transformação tecnológica, Portugal precisa de Oficiais preparados técnica e intelectualmente, mas sobretudo moralmente capacitados.
O País necessita de líderes que saibam decidir quando não existem respostas fáceis.
Que saibam permanecer serenos quando todos os outros estão inquietos.
Que saibam unir quando as circunstâncias tendem a dividir.
O Exército Português afirma hoje a visão de um Exército credível, moderno, de elevada prontidão e competência, sustentado pela liderança, pela inovação e pela valorização das pessoas.
Essa visão está em cada um de vós.
A espada que hoje ireis receber é uma das mais antigas insígnias de comando.
Contudo, os combates que enfrentareis serão completamente diferentes daqueles que enfrentaram os vossos antecessores.
As guerras modernas já não se travam apenas no terreno.
Combatem-se através da informação. Da tecnologia. Do ciberespaço. Da inteligência artificial. Da manipulação da perceção. Da velocidade da decisão. O campo de batalha tornou-se multidimensional.
Mas há algo que permaneceu imutável.
Nenhuma tecnologia substituiu o carácter.
Nenhum algoritmo substituiu a coragem.
Nenhum sistema substituiu a responsabilidade moral de um líder.
As máquinas poderão calcular.
Mas continuarão a ser os comandantes a decidir.
E serão sempre os valores humanos que distinguirão os grandes líderes dos meros gestores da guerra.
A modernidade exige inovação.
Mas exige igualmente identidade.
Exige adaptação.
Mas não permite perder os princípios.
E porque o Exército emana da Nação, a missão dos Oficiais não termina na defesa militar do Estado.
Portugal conhece bem os seus militares.
Conhece-os nos incêndios. Nas cheias. Nas emergências. Nas crises. Num simples rebentar de pneu na beira da estrada.
Nos momentos em que tudo parece desabar, a presença de um soldado devolve confiança a uma população.
Quando uma criança, um jovem, um adulto ou uma pessoa marcada pelo tempo, vê chegar um militar para ajudar a sua comunidade, não vê apenas um uniforme. Vê segurança. Vê esperança. Vê Portugal a cuidar dos seus.
Assim se constituiu nas missões do Exército - colaborar na proteção civil, apoiar as populações e contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos portugueses.
Por isso, jamais esqueçais:
O vosso comando não existe apenas para vencer guerras.
Existe para servir pessoas.
Porque, no final, as Forças Armadas não defendem território só por causa da terra.
Defendem-no por causa das pessoas que nela vivem. Por isso, a Paz é o desígnio mais importante que devemos acautelar.
Dentro de momentos tereis uma espada nas mãos. Sentireis o orgulho. Sentireis a emoção. Sentireis, talvez, o peso da tradição.
Mas desejo, enquanto Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas, que sintais também algo maior.
O peso da confiança que Portugal deposita em vós.
Quando olhardes para esta espada ao longo da vossa carreira, recordai que ela simboliza algo muito maior do que um posto ou uma função.
Ela simboliza uma promessa.
A promessa de que nunca colocareis a vossa conveniência acima do dever.
A promessa de que liderareis pelo exemplo.
A promessa de que os vossos subordinados encontrarão em vós um chefe competente, mas também um ser humano íntegro.
A promessa de que honrareis aqueles que vos antecederam e preparareis aqueles que vos sucederão.
Porque as espadas passam de geração em geração.
Mas os valores permanecem.
E quando um dia vos perguntarem o que significa ser Oficial do Exército Português, que a vossa resposta não seja dada por palavras.
Que seja dada pelo vosso exemplo. Pelo vosso serviço. Pela vossa honra. Pelo orgulho de ser SOLDADO de Portugal. De servir Portugal.
Viva a Academia Militar,
Viva o Exército Português,
Viva Portugal.