Há terras onde o tempo se mede pelos sinos da igreja. Em Penamacor, mede-se também pelo silêncio das ruas.
Inaugurar uma creche numa terra do interior não é um ato administrativo. É um ato de confiança no futuro. É dizer a quem vive aqui, e a quem aqui pensa vir viver, que nesta terra, em Penamacor, se pode começar uma vida, se pode construir um projeto de vida.
Quero agradecer à Santa Casa da Misericórdia de Penamacor, que desde 1614 serve esta comunidade com uma constância que poucas instituições podem igualar. Ao Município, que percebeu que investir numa creche é investir nas pessoas, como, aliás, o Senhor Presidente da Câmara acaba de referir. E a todos os que, com trabalho discreto e, muitas vezes, invisível, tornaram possível este dia. Quero aqui englobar um cumprimento ao Governo, à Segurança Social, à CCDR (Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional), à empresa de construção civil e todas e todos os que contribuíram para que esta obra fosse hoje uma realidade.
E, sobretudo, sublinhar uma coisa tão simples e, muitas vezes, tão afastada da vida política portuguesa: uma decisão tomada num mandato anterior, num ciclo eleitoral anterior, foi continuada. Por isso felicito o anterior e o atual Presidente da Câmara de Penamacor, por saberem dar continuidade e por perceberem que, acima dos caprichos ou dos interesses eleitorais, está a vida das populações, a vida das pessoas. Era bom que esta cultura se transpusesse também para o plano nacional.
Minhas senhoras e meus senhores,
Permitam-me que hoje fale também como filho desta terra. Sei que muitos de vós, se não a maioria ou a totalidade, estarão surpreendidos por eu não falar de improviso, como tantas vezes aconteceu. É precisamente para que o coração e a emoção não me traiam nas palavras que hoje quero partilhar convosco.
Nasci em Penamacor na década de 60. Tenho memória das ruas cheias de brincadeiras, de escolas em quase todas as aldeias, de famílias numerosas. Mas não havia creche. Os mais pequenos ficavam com as mães, com os avós ou com as vizinhas. Nem sequer havia um parque infantil. Lembro-me de tantas vezes, no nosso jornal A Verdade de Penamacor, pugnarmos por um parque infantil, e estou certo de que o nosso amigo João Lontra também o fazia nas páginas do Jornal do Fundão.
Hoje, a realidade inverteu-se. Nos últimos 15 anos nasceram no concelho 376 crianças. Menos do que na década em que eu nasci. Muito menos. Há 60 anos tínhamos crianças e não tínhamos creche. Hoje temos creche e temos de lutar por cada criança.
Os números não deixam margem para ilusões. Penamacor tem hoje quase cinco pessoas com mais de 65 anos por cada criança ou jovem com menos de 15. É o oitavo concelho do país com menor densidade populacional: menos de oito habitantes por quilómetro quadrado. Entre 2021 e 2025, morreram aqui mais de 380 pessoas do que as que nasceram.
Se a população não diminuiu nestes anos, foi graças a quem resiste e a quem aqui vive. A quem veio e a quem decidiu ficar. É um sinal de esperança. Mas é também um aviso. Quem chega só fica se encontrar razões para ficar, como muito bem disseram o nosso Provedor e o nosso Presidente da Câmara. E essa é uma responsabilidade de todos.
Não nos podemos acomodar a gerir o declínio. Temos de olhar para a nossa terra, e para todas as terras do interior, como terras de oportunidade e de futuro.
Há pouco, o Senhor Presidente da Câmara disse que aqui, no interior, não se desiste. Bem sei. Somos feitos de granito. Mas é necessário que a essa resistência correspondam oportunidades, para que os sonhos de quem vive no interior possam ser concretizados.
Se é verdade que a nossa Constituição diz que todos os cidadãos são iguais perante a lei, que todos merecem igual consideração e iguais oportunidades, também é verdade que o investimento público, frequentemente, demasiadas vezes, se esquece do interior de Portugal. E, às vezes, um milhão de euros no interior faz muito mais diferença na vida das pessoas e dos territórios do que um milhão de euros aplicado no litoral.
Minhas senhoras e meus senhores,
Esta creche, como foi dito e como todos sabemos, não é apenas um edifício. É a decisão de uma vontade. A vontade de acreditar que o interior tem futuro.
Mas acreditar não chega. É preciso criar condições. Ninguém se fixa numa terra onde não consegue trabalhar, onde não encontra casa, onde a consulta fica a uma hora de estrada e o autocarro passa duas vezes por dia. Ninguém decide ter um filho onde não sabe quem cuidará dele enquanto trabalha.
Emprego, habitação, saúde, escola, transportes, ligações digitais: são estas as condições básicas para contrariar o despovoamento e o envelhecimento. Não são favores ao interior. São direitos de quem cá vive.
E deixem-me dizê-lo com clareza: Portugal não se esgota no litoral. Um país que deixa esvaziar metade do seu território não fica mais leve. Fica mais pobre, mais desigual e mais frágil. Cada aldeia que fecha é uma parte de Portugal que se perde. A Raia, a Beira, o Alentejo, Trás-os-Montes: todo o País conta para o todo. E o todo só é forte quando nenhuma parte fica para trás.
Minhas senhoras e meus senhores, queridas e queridos amigos,
Há nesta obra uma marca que quero sublinhar. Nasceu da vontade da comunidade. Não foi desenhada num gabinete distante. Foi pensada por quem conhece as famílias pelo nome. Por quem sabe a que horas começa o turno e a que horas passa o autocarro. Por quem sabe que avó já não tem forças para ficar com o neto.
Respostas sociais assim, construídas em proximidade com quem delas precisa, chegam mais longe e servem melhor. Essa é a herança das Misericórdias. Essa é a força da sociedade civil portuguesa. E é um património que o país deve proteger.
Eu próprio sou testemunha disso. Há cerca de quatro anos visitei este edifício, ainda antes de estar concluído. E posso garantir-vos que uma parte dos cabelos brancos do nosso Provedor se deve precisamente às preocupações que sempre teve para realizar obra aqui, na nossa terra, na sua terra, de que tanto gosta.
Mas proteger não é sobrecarregar. Este investimento custou um milhão de euros. Contou com fundos europeus, com o esforço do Município e com o esforço da Santa Casa da Misericórdia.
E é aqui que é preciso ser franco. É inaceitável que o acesso a uma creche dependa, muitas vezes, do código postal. Que, em demasiadas terras do interior, a existência de uma resposta para a primeira infância dependa da capacidade de uma instituição para se endividar ou de uma câmara para esticar um orçamento que já é curto.
Cuidar da infância, como cuidar de quem envelheceu, não é caridade. É uma responsabilidade do Estado. Repito o que tenho dito e continuarei a dizer: não cabe ao setor social substituir-se ao Estado. Cabe-lhe ser a rede de proximidade que chega onde o Estado ainda não chegou. E cabe ao Estado garantir que essa rede tem meios, estabilidade e o reconhecimento que merece. Com acordos de cooperação que acompanhem os custos reais. Com investimento público que não esqueça os territórios de baixa densidade e que esteja atento, como o Senhor Provedor solicitou, às diferenças que existem entre estar no interior e estar no litoral e, sobretudo, à desigualdade de rendimentos que, infelizmente, caracteriza o nosso território.
Queridas e queridos amigos,
Às crianças que aqui vão crescer, o meu desejo sincero é que sejam felizes nesta casa.
Às educadoras, às auxiliares e a toda a equipa: todos os dias dão o que de mais precioso existe, tempo e afeto. O que fazem não tem preço e nem sempre tem o reconhecimento que merece. Tenham hoje o reconhecimento do vosso Presidente.
Aos pais, uma palavra especial: obrigado por terem escolhido Penamacor para criar os vossos filhos. É a maior prova de confiança que esta terra pode receber.
E, se me permitem, termino com uma nota pessoal.
Voltar hoje a Penamacor como Presidente da República é uma emoção difícil de traduzir em palavras. Foi aqui que tudo começou. Foi aqui que dei os primeiros passos, que aprendi os primeiros valores, que conheci as primeiras pessoas e construí as minhas raízes. Foi aqui que descobri o sentido de coisas tão simples como a comunidade e o cuidar uns dos outros. Foi aqui que aprendi os valores da solidariedade e como a escola pública e a saúde pública fazem a diferença na vida das pessoas.
Voltar a Penamacor é, hoje, voltar a uma parte de mim. A vida levou-me por outros caminhos, mas há lugares de onde nunca verdadeiramente partimos.
Hoje volto com emoção e com muita gratidão. A todos vós, aos meus pais, aos meus irmãos, à minha família. Trago comigo a memória de onde vim e a responsabilidade de servir todos os portugueses. Porque podemos ir muito longe, mas nunca devemos esquecer o lugar onde aprendemos a dar os primeiros passos. Eu nunca esqueci, nem esquecerei, esta terra, a minha Penamacor.
Hoje regresso às minhas raízes com a consciência de que servir Portugal é não esquecer nenhuma das suas terras. Porque foi aqui que aprendi de onde venho, e é todo o Portugal que hoje tenho a honra de servir.
Muito obrigado.