É com enorme prazer que me associo a esta Aula Magistral do ano letivo 2026/2027, da Universidade Europeia.
Pela sua natureza, esta sessão reúne a comunidade académica, o tecido empresarial, as instituições e as autoridades locais, e isso diz bastante sobre o tipo de universidade que aqui se constrói: uma universidade ligada à sociedade e aberta ao mundo.
Quero cumprimentar a Senhora Reitora, Professora Hélia Pereira, e, na sua pessoa, todos os que fazem desta Universidade o que ela é: os Senhores Vice-Reitores, os Diretores das Faculdades, os Diretores Científicos e de Programa, a Provedora do Estudante, os docentes e os colaboradores. Cumprimento também a Entidade Instituidora e o Advisory Board, na pessoa da Dra. Maria de Belém Roseira e dos Professores Adalberto Campos Fernandes e Pedro Rebelo de Sousa, cujo acompanhamento é essencial para que uma instituição de ensino superior se mantenha exigente, atual e ambiciosa.
À Senhora Reitora deixo um reconhecimento particular. A liderança de uma universidade exige visão, rigor e capacidade de agregar pessoas em torno de um projeto, e é isso que vemos na forma como esta casa se tem afirmado como espaço de excelência e como se tem projetado para o exterior.
Se dúvidas houvesse, a presença aqui connosco de uma personalidade da dimensão do Presidente Joaquim Chissano ilustra a capacidade desta universidade se abrir ao exterior e criar laços, bem como de fortalecer os já existentes.
Permitam-me agora saudar, com particular respeito e admiração, o Senhor Presidente Joaquim Chissano.
Joaquim Chissano é uma personalidade incontornável da história de Moçambique, não só pelo desempenho das funções de Chefe de Estado durante cerca de 18 anos, entre outros cargos políticos, mas sobretudo pelo seu papel decisivo em momentos-chave: desde as negociações que conduziram à independência do país até às negociações que puseram fim à guerra civil e conduziram à paz.
O seu contributo foi fundamental para a construção da democracia em Moçambique. Impulsionou as reformas que levaram à adoção da Constituição de 1990, implementando um sistema político multipartidário e abrindo a economia. Falamos de decisões difíceis, tomadas num contexto muito exigente, e que moldaram o país que Moçambique é hoje.
O seu legado tem ido muito além das fronteiras de Moçambique, e mesmo do continente africano. Assumiu importantes funções de liderança e de mediação de conflitos em organizações regionais e internacionais: foi Presidente da União Africana e da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral, a SADC, e foi Enviado Especial do Secretário-Geral das Nações Unidas.
E não posso esquecer que foi um dos Chefes de Estado fundadores da nossa Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, há 30 anos. A CPLP é hoje uma das expressões mais vivas do que une os países que partilham a nossa língua, e o Senhor Presidente esteve na sua origem.
Hoje, prestes a cumprir 87 anos, no próximo dia 22 de outubro, continua envolvido em várias causas, projetos e plataformas internacionais, em prol da paz, dos princípios democráticos, do desenvolvimento e do combate à pobreza. As missões e os valores da Fundação Joaquim Chissano e do Fórum dos Antigos Chefes de Estado e de Governo Africanos, a que também preside, espelham bem a sua vocação e o seu empenho na promoção da qualidade de vida das populações, do diálogo e da paz, bem como da valorização da cultura moçambicana e africana.
Em suma, um compromisso de vida baseado na convicção e na esperança de uma África melhor e de um Mundo melhor. Senhor Presidente, obrigado por continuar a ser uma voz da paz e do diálogo num mundo que tanto precisa de entendimento, de cooperação e de solidariedade entre os povos.
Ao escutá-lo, surge uma dúvida que todos temos e que se adensa quando ouvimos alguém que, com inteligência e sensibilidade, ajudou a construir a paz: porque é que os homens continuam a insistir na guerra para resolver os problemas e os conflitos entre eles? As novas gerações foram formadas com base na confiança, no entendimento e na paz, porque é a paz que leva à prosperidade e à cooperação. É a paz que nos permite concretizar, na prática, os valores e princípios estruturantes da nossa sociedade.
Porque não se põe fim à guerra? Porque é que as armas não se calam? Porque não se encontram, como aconteceu em Moçambique, soluções de paz sensatas e duradouras, para que as pessoas tenham direito a uma vida digna, sem sofrimento? Num momento em que os conflitos se alastram e teimam em persistir, é importante voltar a frisar que todos temos a capacidade e o dever de escolher líderes que coloquem a defesa da paz no topo das suas prioridades, como condição para o nosso desenvolvimento.
Tivemos hoje o privilégio de ouvir o Senhor Presidente numa lição com o título "Liderança, Paz e Desenvolvimento – Lição para as novas gerações". Dificilmente se poderia ter escolhido um orador mais indicado, nem um tema mais oportuno.
Repare-se que estas três palavras, liderança, paz e desenvolvimento, não são apenas o título de uma lição. São, em boa medida, o resumo de um percurso de vida. Quando Joaquim Chissano fala de liderança, fala de quem a exerceu em tempos difíceis. Quando fala de paz, fala de quem a negociou e a construiu, à mesa das negociações e no terreno, com o esforço paciente que a reconciliação exige. E quando fala de desenvolvimento, fala de quem abriu um país à mudança, às instituições democráticas e a uma economia mais aberta.
E há uma ligação entre as três: não há paz duradoura sem liderança; não há desenvolvimento sem paz; e a paz não se sustenta sem desenvolvimento. É esta uma das lições que o Senhor Presidente nos traz, e é por isso que ela é dirigida, e bem, às novas gerações.
Aos estudantes que aqui estão, digo: aproveitem esta oportunidade rara.
Em poucas ocasiões temos a possibilidade de aprender diretamente com quem escreveu páginas decisivas da história contemporânea. Os manuais falam de processos de paz, de transições políticas e de mediação internacional. Hoje, nesta casa do conhecimento, têm à vossa frente quem os viveu e conduziu. Estou certo de que levarão desta lição não apenas conhecimento, mas inspiração para os desafios que vos esperam.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Este momento diz também muito sobre a relação entre Portugal e Moçambique, para a qual Joaquim Chissano deu, e continua a dar, um importante contributo, nas diversas funções que tem desempenhado ao longo das últimas décadas, para o desenvolvimento das relações entre os dois países e para o estreitamento dos nossos laços.
Moçambique é um parceiro prioritário de Portugal. A relação bilateral é marcada pela fraternidade e pela confiança mútua, construída ao longo dos anos, e assente numa cooperação sólida e diversificada, em áreas como a língua, a educação, a saúde ou a defesa.
O dinamismo da relação bilateral é evidenciado pela intensidade dos contactos de alto nível. Entre eles, destaco a recente visita oficial do Presidente Daniel Chapo, por ocasião do EurAfrican Forum, em julho, na qual tivemos oportunidade de trocar ideias sobre as relações entre a Europa e África, partilhando a visão sobre o potencial do continente africano e a ambição de uma parceria renovada, baseada no diálogo político e numa cooperação mutuamente benéfica, em que o comércio e o investimento têm um papel essencial.
Na vertente bilateral, Portugal e Moçambique tiveram igualmente a oportunidade de discutir formas de aprofundar a cooperação e o relacionamento, tendo como pano de fundo a VI Cimeira Portugal-Moçambique, realizada em dezembro de 2025, que constituiu um novo patamar de reforço da parceria estratégica e refletiu bem a densidade e a abrangência temática da relação bilateral.
A última Cimeira evidenciou forte convergência entre os dois países, que se traduziu num compromisso comum com a melhoria do ambiente de negócios, a promoção do investimento sustentável e o reforço do setor privado enquanto motor fundamental do crescimento económico e da criação de emprego. Para esse desígnio contribuirão certamente as cerca de 500 empresas portuguesas a atuar em Moçambique, em múltiplos setores.
É por isso que me congratulo com a presença, nesta sala, da Câmara de Comércio Portugal Moçambique e de tantos empresários, gestores e instituições, do setor financeiro à indústria, passando pela certificação, pelo crédito e pelas associações profissionais, que fazem desta relação uma realidade no dia a dia. A política abre caminhos, mas são as pessoas, nas empresas e nas instituições que os percorrem.
Não poderia deixar de referir ainda o papel das vastas diásporas dos dois países no reforço do relacionamento bilateral e no contributo que aportam às respetivas sociedades, economias e mercados de trabalho. A comunidade moçambicana em Portugal e a comunidade portuguesa em Moçambique são pontes vivas entre dois países que se conhecem e se estimam.
Termino como comecei, expressando a minha gratidão.
À Universidade Europeia e à Senhora Reitora, por nos receberem e por abrirem à comunidade a possibilidade de ouvir uma lição desta dimensão. Ao Senhor Presidente Joaquim Chissano, por uma vida de serviço dedicada à paz e ao diálogo. Aos estudantes, a quem cabe agora transformar em ação o que aqui ouviram. E a todos vós, por testemunharem que a amizade entre Portugal e Moçambique tem muito futuro para construir.
Muito obrigado.