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Intervenção na cerimónia de apresentação do livro “Álvaro Siza Vieira - Arquiteto de Sonhos”

Temos sempre a ilusão de que o fim do mundo não nos apanha desprevenidos. É por isso que, ao longo do tempo, a humanidade tentou organizar e proteger uma espécie de reserva para o que aconteceria depois do fim do mundo.

Isso significa que, apesar das alterações climáticas, dos conflitos militares ou do pessimismo, não acreditamos verdadeiramente no apocalipse como o fim de todas as coisas e temos esperança numa forma de recomeço depois dele. Num tempo novo. Num renascimento. Na possibilidade de reiniciar uma forma de vida inteligente.

É por isso que preservamos alguns bens materiais e registos de bens imateriais. Fórmulas de alimentos, ou sementes de espécies botânicas e agrícolas. Cópias de livros e de códigos informáticos, de filmes e de manuscritos, de peças musicais e de tratados de medicina, fórmulas matemáticas ou documentos que nos ajudariam a refazer a memória do mundo – embora noutro mundo, reconstruído a partir de um zero improvável.

De entre esses bens estariam, certamente, imagens de grandes realizações arquitetónicas e, entre elas, projetos de Álvaro Siza Vieira.

Com esses projetos preservaríamos a simplicidade das suas soluções, o traço dos seus desenhos, a sua ideia de harmonia, de comunidade e de espaço.

A sua ideia de casa, a sua ideia de humanidade. Desenhar uma casa, projetar um edifício, conceber uma praça, uma varanda ou uma igreja, fazem parte da sua ideia de arte e de cidadania. E daquilo que imaginamos poder ser um recomeço do mundo.

É disso que também fala, como uma voz pausada, a sua obra de arquiteto, de artista plástico e de poeta.

Num momento em que a habitação não é apenas aquele problema da “habitação sobre a terra” de que falava o poeta Ruy Belo, mas um problema concreto, humano e para o qual procuramos respostas igualmente concretas e humanas, é fundamental ouvir Álvaro Siza Vieira quando dizia ter dúvidas sobre a expressão “habitação social”, porque “toda a habitação é social”.

Ora, a habitação é uma das preocupações centrais do nosso tempo e do nosso país. É aqui que a dignidade humana e a casa se encontram.

E a casa, aqui, não é uma metáfora. A casa é o centro do mundo, assim como a rua, o bairro e a cidade são o centro da vida em comum. Toda a obra de Siza Vieira fala dessa ligação entre o espaço e os humanos que o ocupam, entre o humano e o lugar onde habitamos.

Interrogado por Fátima Campos Ferreira acerca da ligação entre a linguagem da arquitetura e a linguagem poética, Siza Vieira mencionou Eugénio de Andrade e o seu livro “Ostinato Rigore”, um título belíssimo que evoca, também, Leonardo Da Vinci e o trabalho de atenção, minúcia e experimentação persistente.

É isso que também celebramos hoje: o rigor obstinado de Siza Vieira.

Onde Eugénio de Andrade procurava a palavra exata num verso, a melodia perfeita ou quase perfeita de um poema, podemos falar do rigor obstinado do trabalho de Siza sobre o papel, e de como esse traço evoca aquilo que fez a sua arquitetura ser como é: a memória da Matosinhos natal e da infância, da família e das viagens, da primeira vez que nos impressionámos com uma linha ou uma escadaria, com uma sombra ou a direção de um foco de luz.

Os materiais de construção da sua obra não são apenas o ferro e o betão, a madeira e o mármore ou o vidro.

São também o amor, o passado e a ideia de comunidade, a procura da beleza, a topografia e o caminho até ao café onde nos encontramos com os outros, o esquisso e a maquete que se transformam permanentemente, à medida que as exigências do humano e os seus ideais de beleza se fazem ouvir no ateliê do arquiteto.

Quando, numa conversa maravilhosa, Fátima Campos Ferreira perguntava a Álvaro Siza Vieira sobre “o que produz a beleza”, a resposta mencionava “o sentido de comunidade”, e o dever de lidar com as necessidades do humano sem deixar de continuar a desenhar os sonhos.

Os sonhos, como sabemos, são feitos de tudo. E, muitas vezes, são feitos de inesperado, tal como a arquitetura é feita “de vários tipos de conhecimento”, estou a citar Siza Vieira, e “lidando com complexidades que não existiam”.

O seu projeto tem sido – foi sempre, como lemos neste livro – a procura de uma linguagem que transformou as metáforas numa atividade que está ao serviço dos seres humanos que habitam a terra, as cidades ou os jardins. Que caminham pelas ruas e pelas praças. Que procuram um lugar de silêncio e de recolhimento – ou um lugar de celebração e trabalho.

Isso não se faz com grandiloquência e excesso, mas com esse “ostinato rigore” de que falava Eugénio de Andrade. O rigor obstinado dessa investigação permanente sobre uma casa digna para a humanidade.

Deixem-me lembrar-vos uma coincidência deslumbrante. Nos primeiros anos da década de 60, quando Siza Vieira desenhava obras como a Casa de Chá da Boa Nova, a Piscina das Marés, a Piscina da Quinta da Conceição ou o complexo da Cooperativa de Lordelo do Ouro, entre muitos outros projetos, Sophia de Mello Breyner escrevia estas palavras:

“A arquitectura é especificamente a expressão duma relação justa com a paisagem e com o mundo social. Fora destas coordenadas só há má arquitetura. (…) É necessário que aqueles que vão construir amem o espaço, a luz e o próximo. (…) Acima de tudo é preciso evitar a falta de amor. De todas as artes, a arquitetura é simultaneamente a mais abstracta e a mais ligada à vida. Aqueles que não amam nem o espaço, nem a sombra, nem a luz, nem o cimento, nem a pedra, nem a cal, nem o próximo, não poderão criar boa arquitetura”.

Esta coincidência não é, digamos, pura coincidência. Catorze anos depois deste texto, precisamente quando Siza Vieira desenhava o que viria a ser o projeto inicial da Quinta da Malagueira, em Évora, Sophia de Mello Breyner publicou o livro “O Nome das Coisas”, onde podemos ler o poema “A Forma Justa”, que inclui estes três versos finais:

“Sei que seria possível construir a forma justa / de uma cidade humana que fosse / fiel à perfeição do universo.”

Esta menção da “forma justa” recorda-nos, em simultâneo, tanto a precisão das geometrias  como a justiça nos assuntos humanos. Na obra de Siza, coroada por uma vasta lista de prémios e distinções, ambas as coisas existem também em simultâneo, porque a arquitetura faz do mundo um lugar melhor, mais atraente, mais simples e mais habitável – para todos.

Isto faz de Siza Vieira um mestre para pensarmos o nosso tempo. Talvez o seu trabalho seja uma das razões para acreditarmos na beleza das coisas que perduram. Se o mundo pudesse recomeçar, certamente ele seria um dos seus desenhadores.