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Mensagem após a visita inaugural à exposição “Camões. Vida, obra e permanência na cultura hispânica” na Biblioteca Nacional de Espanha

Inaugurámos hoje, em Madrid, na Biblioteca Nacional de Espanha, onde permanecerá até fevereiro do próximo ano, uma vasta exposição inteiramente dedicada a Luís de Camões. Tivemos a honrosa presença do Rei de Espanha, a quem muito agradeço.

Esta exposição reveste-se de especial significado porque não se limita a apresentar a vida e obra de Luís de Camões. Mostra os antecedentes e o contexto histórico do tempo em que viveu e como se formou a sua identidade cultural, herdeira de Homero, Virgílio ou Petrarca, e contemporânea de João de Barros ou de Sá de Miranda.

Além disso, reúne um importante conjunto de edições, como a primeira edição de «Os Lusíadas» ou as primeiras traduções castelhanas, e dá conta da projeção de Camões na cultura portuguesa e na cultura hispânica, de um e de outro lado do Atlântico, e em todas as épocas, do século XVI a Jorge Luis Borges e muitos autores contemporâneos.

É uma exposição que honra todos os portugueses.

Camões não é apenas o poeta que transformámos em símbolo nacional. É um autor cuja obra adquiriu uma dimensão universal, que os estudiosos comparam à «Odisseia», à «Eneida» ou à poesia dos grandes mestres como Ovídio ou Horácio, Dante e Petrarca, galeria a que pertence.

A sua e nossa epopeia em verso, «Os Lusíadas», é a epopeia de um povo europeu, mas é também a última grande epopeia da Idade Moderna.

É a epopeia da própria humanidade em viagem, enfrentando as realidades e os demónios, os medos e os fascínios do seu tempo, os erros e enganos da sua época, mas não se limitando a ela.

Autor universal, Camões fala para os seus contemporâneos e para os leitores que daí em diante tiveram uma língua literária, uma identidade, um imaginário coletivo.

Verdadeiramente, nós, portugueses, nunca estamos a ler Camões, mas a relê-lo – mesmo que nunca o tenhamos lido antes.

Porque a sua obra está impressa em nós como uma segunda identidade. A sua poesia moldou a forma como falamos de sofrimento e de amor, de euforia e de atrevimento. Como celebramos a beleza, a ironia e a coragem, como desconfiamos da Pátria e como nos criticamos a nós próprios.

A sua obra moldou a nossa maneira de pensar e de sentir, formou a nossa sensibilidade, transformou o nosso afeto, edificou uma Língua que celebramos em vários continentes, porque ele a melhorou e recriou como poucos conseguiram, e pela qual nos habituámos a falar sobre a dor e a alegria, a construir formas de ver a natureza e a humanidade.

Em certa medida, Camões ensinou-nos a pensar sobre muitas coisas. Não porque tivesse sido um filósofo ou um educador, mas porque, nos seus versos, falou do amor, do conhecimento, do mar, dos pobres que embarcaram nas naus e dos pobres que ficaram em terra, do poder e dos poderosos, da inveja e do ressentimento, dos excluídos, dos que tinham dúvidas, dos que sonharam, dos que cometeram erros, dos que se divertiram como aventureiros ou dos que sobreviveram à míngua, dos que foram cruéis com os seus semelhantes ou dos que enfrentaram o desconhecido com coragem, com medo, com carácter destemido ou com arrogância.

A sua obra, portanto, fala das nossas contradições. Tenta compreender o drama do humano, as suas exigências e atribulações, os seus maus comportamentos e o seu desejo de glória, observando a forma como tratamos os outros, chamando-nos aos deveres da tolerância, da curiosidade e do respeito.

Uma parte de nós, portugueses, pertence-lhe. Continua a pertencer-lhe.

Nós, portugueses, somos aqueles que leram o soneto do amador a transformar-se na coisa amada, somos aqueles que aprenderam que «o amor é um fogo que arde sem se ver».

Celebrar Camões, quinhentos anos depois, é também uma forma de sermos portugueses, porque ele nos escreveu a todos. Esta exposição na Biblioteca Nacional de Espanha é uma homenagem que nos orgulha.

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